sábado, 9 de junho de 2012

Prestes a chegar

Estávamos cada vez mais perto do nosso destino: a casa da minha avó. O GPS acusava que estávamos no último quarto da rota traçada. No carro, já alimentados e no meio de uma boa conversa, o Naldo continuava a pedir o meu material, que ele havia encontrado no porta-luvas do carro.
- Me dá o mapa, tu não vais mais precisar dele, já sabes os caminhos de cor.
- Isso é parte da bagagem de um piloto espacial, de um astronauta. Não posso viajar sem isso.
- Então arruma um pra mim, vai, por favor...
Apertei o botão atrás da minha orelha direita:
- Atagildo, você tem um Manual de Voo e um Mapa de Navegação aí sobrando? Então desça eles aqui no carro. Obrigado.
O mapa e o manual desceram voando, pairando no ar. Abri a janela, peguei os dois, dei pra ele e fechei a janela. Ele olhava os documentos encantado com aquilo, sorrindo. Folheou ambos, em silêncio por um tempo.
- Essa aqui que é Capella?
- É, nasci lá. Capella é o nosso sol, é a sexta estrela mais brilhante do céu. Fica na constelação de Auriga. Habitamos um dos 3 planetas que orbitam em torno dela, bem parecidos com a Terra. Téia, é onde nasci. Vem daí o nome da Terra, Gaia.
- Gaia?
- É, esse é o nome da Terra no universo.
Ele me olhou.
- Tu me ensinas a ler o mapa?
- Imaginei que ias me pedir isso. E aqui está o explicativo.
Dei um outro livro pra ele.
- Onde estava esse? Eu não vi antes, junto com os outros.
- Nem podia ver. Acabei de clonar. Esse é o Manual do Estudante. Está tudo explicadinho. Estuda pra fazer o teste pra pilotar a nave.
- Legal, gostei! Vou estudar mesmo.
- Não mostra isso pra ninguém...
- Não, é segredo, eu sei. Vou colocar na minha mochila. Eu não largo ela pra nada, faz parte da minha roupa. Esse é o melhor presente da minha vida. Vou faze aniversário daqui a mais uns dias, 15 anos.
Sorri e disse:
- Lá em Capella, com essa idade, os rapazes já estão se formando e entrando em estágios. Com 18 anos, lá, todo mundo é “Doutor”. Vamos receber um novato agora pra nossa equipe, que tem 18 anos e é perito em solos, substâncias betuminosas, petróleo, petróleo bruto, asfalto nativo, asfalto rochoso, alcatrão, asfaltos pirogênicos, mastique, ceras, piche e os vários tipos de betume. Ele vai pro sul do Iraque, onde betume alcatrão e asfalto brotam na superfície, de forma natural. Lá era a antiga Suméria, onde é o sul do Iraque agora. Nós não tiramos nada da Terra e pegamos o que ela nos dá. Não precisamos perfurar profundamente o solo pra tirar nada da Terra. Pegamos o que está ali, a nosso dispor. De vez em quando, os rapazes vão lá, então pediram um especialista.
- Esse é o “A...” o que?
- Não entendi...
- Não são Atagildo, Atanásio, Astor, Andrew? Esse é o “A...”?
- É o Pedro, não tem nenhum A!
- Um ET chamado Pedro?
- Por quê?  Algum problema?
- Não, achei que era tudo com A, só isso.
- E tu estás no esquema, Reinaldo Arnaldo.
- Quem te falou o meu nome?
- Eu sei.
- Eu não digo que me chamo assim. Acho horrível esse nome Reinaldo Arnaldo.
- O meu é Etnéia Enéia, e eu gosto.
- Coisa de ET.
- Essa é primeira vez que eu estou convivendo de verdade com um terráqueo. Que estou sendo eu... Antes eu estava sempre com o pé atrás, me escondendo, me disfarçando. Agora, contigo, eu me sinto como se estivesse entre os rapazes, entre os meus. Acho que tu és um ET puro, não me rejeitas em nada e eu não tenho rodeios contigo, fico à vontade. Você parece o meu irmão mais velho, ele está com 14 anos também, está se formando também, a única diferença entre vocês é que ele é careca... Vocês são até parecidos.
- Eu queria conhecer um ET da minha idade. O que os meninos de lá fazem?
- Estudam, jogam beyblade, xadrez, lutam esgrima, essas coisas. Pelo menos foi o que ele me disse que fazem lá, quando esteve aqui. Já o menorzinho gosta de construir coisas, montar, até mandei  uns brinquedos da Lego, e ele gostou tanto que dei mais a ele quando esteve aqui. São brinquedos muito inteligentes e uma perfeição nos encaixes. Aqui eu o ensinei a jogar bola, andar de bicicleta, soltar pião, empinar pipa. Agora ele está lá ensinando pros amigos dele em Capella.
- Vocês não tem jogo de bola, lá?
- Não, não temos esse tipo de competição lá. Só xadrez, equitação, polo, golfe, boliche, bocha. Nada de se digladiar em jogos competitivos, é só por diversão, relaxamento, passatempo, jogos inteligentes e brincadeiras para descontrair. De vez em quando os rapazes vão jogar golfe lá na Inglaterra. Eu gosto do jogo de tênis e, de vez quando, vou dar umas raquetadas por aí.
- Eu queria te perguntar uma coisa....
- Pergunta...
- Qual é material da nave?
- Flandre. Sabe o que é flandre?
- Não faço nem ideia...
- É uma lâmina de ferro recoberta de estanho. Sabe o que é estanho?
- Também não sei... Sei que é um metal...
- Isso mesmo, é um metal. Um elemento químico de símbolo SN, peso atômico 118,8, número atômico 50, recoberta de alumínio, elemento químico de símbolo Al, peso atômico 26,97 número atômico 13. O ferro tem símbolo FE, elemento químico (metal) peso atômico 55,84 e número atômico 26. E os sais? Você sabe o que são sais? Resultados de um composto químico... Então, quanto à sua pergunta, a nave tem ferro na estrutura e revestimento de estanho e alumínio.
- Nossa, ela sabe tuuudo...  
- Tu não queres construir uma nave? Então vai logo sabendo o material usado.
- Aí solda tudo, é?
- Não! De jeito nenhum. Tudo é usado por aderência.  A energia circulante dentro da nave molda esses elementos. É como montar uma barraca de camping.
- Tudo solto, não tem solda e não se solta se espaço?
- Não. Fica aderente.
- E o peso?
- A estrutura é levíssima. São folhas finas desses elementos, que a energia adere na estrutura e as mantém unidas, uniformes, sob pressão. Um ímã. Sabe o que é um ímã? É o óxido magnético de ferro que atrai o ferro e outros metais. Fica tudo imantado, magnetizado. O magneto põe em funcionamento os motores de explosão. É uma máquina magneto-elétrica.
- Vou ter que estudar muito...
- Vai mesmo. Vais ter que conhecer magnetogenia, que é o estudo de fenômenos magnéticos. Também vai ter que saber de Magnetologia, que é o tratado acerca dos ímãs. Não é só fazer, não... Tem que saber e conhecer cada elemento que a compõe e como agem esses elementos entre si.
- E ela não sai por aí atraindo tudo como um grande ímã?
- Não. Ela só interfere na corrente elétrica de vocês, que não tem a segurança necessária. Não é isolada devidamente, fica deixando escapar a corrente elétrica, e isso eletrifica a atmosfera. Vocês vivem no maior perigo sobre a cabeça de vocês. Eu, por exemplo, se não usar esse macacão o tempo todo, posso ser eletrificada, porque a minha eletricidade corporal é maior do que a de vocês. Agora, como fui criada aqui, me adaptei ao meio ambiente mas, mesmo assim, corro riscos e preciso do macacão. E só uma vez ou outra, quando saio a público, não visto ele. Mas, pra trabalhar, é o meu traje de segurança. No dia a dia, sabe?
- Legal, queria um macacão desses! 
- Pra estudar tudo isso que já falamos, tens que estudar eletricidade, e é muita coisa, viu? Tem que ser gênio... E saber química, física, abrangendo todos os ramos dessas ciências. É uma vida... O meu irmão mais velho vai ser cientista, pesquisador. Ele está aprendendo física, física da atmosfera e física nuclear. Vai ser a especialidade dele. Daqui a mais ou menos 4 anos ele vem pra cá comigo, fazer estudos na parte interna da Terra abaixo da litosfera, que é a parte sólida da crosta da terra e a pirosfera, parte interior do globo. Quanto à nave sair atraindo tudo como um grande ímã, isso não acontece devido ao isolamento que é feito na estrutura externa.
- Bem bolado.
- Bem bolado?! É uma genialidade. Vocês não imaginam. Vocês podem até estar construindo discos voadores secretamente, mas naves espaciais iguais às nossas, não. Vocês ainda não conhecem a fundo a propriedade dos elementos que possuem, mal descobriram as coisas. Conheces aquela de “o Verbo disse, ‘faça-se a luz’ e fez-se a luz.”? O que é o Verbo? A palavra. A palavra é o som. Som é energia. O som cria. O universo é um mar de som. Outra energia que cria é a energia do pensamento.
E, de repente, cortando todos os assuntos ele me perguntou.
- Os ETs podem curar as pessoas?
- Podem... Sem cortes nem sangramentos. É possível operar e curar uma pessoa só com energia.
- E você faz isso?
Eu olhei pra ele e reparei que seu tom de voz e sua feição carregavam tristeza. 
- Por que, Naldo? Está com problemas?
- Não... E pensamentos? Você lê pensamentos?
- Não! Só faço isso quando extremamente necessário e quando é inevitável. Não fico lendo a cabeça de todo mundo, não. Pode pensar à vontade...
- Não, não é isso, não... Vamos ouvir música. Tem música neste carro?
- Tem sim, senhor! Vou colocar as músicas que eu gosto, tudo bem?
- Taí... Eu quero saber o que ET gosta de ouvir.

Come Home With Me Baby (deadhouse dub) by Dead or Alive on Grooveshark

O som entrou. Ele ouviu, surpreso. Abriu um sorriso e olhou pra mim, animado:
- Caramba!
- Pensou que eu ia tocar besteira, hein? – Eu precisei gritar, pois a música estava bem alta. Ele gritou de volta:
- Você é muito doida!
- Não é disso que vocês gostam? Os da sua idade? E quanto a ser doida... Já me disseram isso muitas vezes antes.
Ele levantou a mão, eu levantei a minha e batemos as mãos, sorrindo e curtindo a cumplicidade. Ele perguntou onde eu havia conseguido a música e contei que tocava no disco voador, assim como tantas outras das quais ele também gostaria. Disse também pra ele que os rapazes da nave dançavam muito bem e que gostavam de street dance, dança de rua. Perguntei a ele se gostava de break.
- Aquela dança maluca que o sujeito parece um robô se quebrando todo? Sei mais ou menos... Toca mesmo essas coisas no disco voador?
- Toca, sim.
- Então os caras de lá são muito doido também, hein?
- Bom, ET também se diverte e eles precisam de divertir de alguma maneira. Os caras trabalham demais, coitados. Vivem envolvidos com as pesquisas.
- Pesquisas? De que tipo?
- É, eles estudam vocês aqui da Terra, recolhendo material para análises, fazendo experiências... Essas coisas.
- Mas pra que?
- Estudando a vida da Terra, as condições do planeta, para comparar como era antes e como é agora. Saber o que mudou.
Naldo ficou me olhando, tentando imaginar, provavelmente, como seria o interior de uma nave-laboratório alienígena estacionada sobre um fragmento de floresta no interior do estado. No entanto, mudou de assunto.
- Essa música é muito legal. Grava pra mim?
- Gravo... Tenho um CD que o pessoal do disco voador gravou pra mim, vou passar pro teu iPod. Você tem um?
- Não... Meus pais não me dão tudo assim, não...  O computador é por causa da escola, pra fazer os deveres, o celular pra falarem comigo quando for preciso, só assim... A TV do meu quarto eu penei pra ter, foi a minha avó que me deu e foi muita reclamação... Lá em casa é fogo...
- Filho único é isso aí...
- Não, eu não sou filho único, não. Eu tenho um irmão de 7 anos.
- Ah, é? Vocês dividem o quarto? Não pode ser, pois eu já estive no seu quarto e só vi as suas coisas...
- Pois é, cada um tem o seu quarto. Eu tenho o meu, o Rômulo tem o dele.
- Seus pais fazem diferenças entre vocês dois?
- Não... Ele tem problemas... Ele não pode andar. Aí eu tenho que cuidar dele...
Eu olhei pro Naldo, investigando suas feições, lendo nele o quanto aquilo era o chateava. Ele nem notou, pois estava com o olhar longe, na paisagem, ou não quis retribuir o meu olhar. Baixei o som e perguntei sobre a condição do seu irmão. Queria saber por que ele não andava.
- Ninguém sabe, ET. Ele andava, normalmente. Aí as pernas dele foram ficando fracas... Faz dois anos, já, que ele deixou de andar.
- Mas ele está se tratando?
- Ele já fez tudo o que é tratamento e não melhora, está na cadeira de rodas...
- Que chato... Mas como foi isso? Como começou?
- Ninguém sabe... As pernas começaram falhando, Ele caía muito, cada tombo... Até que não andou mais. Por isso que eu queria saber se você faz curas. Eu ouvi dizer que os ETs fazem esse tipo de coisa... Bem que você podia olhar o meu irmão...
- Nunca fiz isso. Já salvei bichinhos atropelados, aqueles passarinhos, mas gente,, nunca.
- E os seus amigos lá do disco voador? Os que estudam a Terra?
- Eu vou falar com eles, pode ter certeza. Mas antes eu mesma quero ver o seu irmão. Falo com eles logo em seguida.
- Você é sensitiva, é isso? A minha mãe já levou ele nessas coisas, em locais onde tem pessoas espíritas, até lá naqueles ligares de santo... Sabe o que é isso?
- Sei... Mas não sou sensitiva, não... É a minha visão de raios-X.
Naldo me fitou, admirado.
- Bom, Naldo, depois voltaremos a falar sobre essas coisas. Agora, quero saber o que eu vou dizer pra mim avó quando chegarmos lá. Eu não consigo encontrar uma maneira ideal de começar a conversa com ela.
- Diga “Oi, vovó! Sou a Etnéia... Sou uma ET e vim lhe conhecer...
- Isso? Mas não posso logo dizer que sou uma ET! Depois eu digo... Ela não sabe nada sobre mim.
- Não?
- Não...
- A minha avó sabe sobre mim...
- Mas a minha, não, e eu soube dela agora, recentemente, senão já teria procurado por ela.
- Você tem uma foto da sua mãe?
- Tenho... Está aí no porta-luvas do carro.
Naldo encontrou a foto e olhou demoradamente. Disse que eu era parecida com a minha mãe e que seria tudo fácil e tranquilo.
- Será?
- ET... Qual é a avó que não gosta dos netos? Qual não gostaria de encontrar um neto que ainda não conhece?
- Quem sabe a minha? Uma neta ET não deve ser o ideal de uma avó... Eu queria muito que ela me aceitasse, só isso. Eu vivo tão sozinha.
- Eu posso ir lá na tua casa passar a minhas férias contigo, te fazer companhia. Sei que não sou a tua família, mas sou teu amigo.
- É, Naldo. Você realmente é meu amigo. Você é a única pessoa que eu conheço que, no princípio, ficou assim meio indeciso, mas que depois me aceitou, acredita em mim, não me trata como ou outros me tratavam.
- Claro! Você é legal demais!
- Você acredita de verdade em mim? Acredita em tudo o que eu digo?
- Acredito... No início eu duvidei mesmo. Depois, não. Eu senti que era verdade... Que é verdade.
- Que bom, pelo menos um terráqueo acredita em mim. Isso já é uma vitória. Não me traiu, guardou segredo... Se bem que quis contar pros garotos lá no acampamento...
- Ah, eu queria dividir. Estava assustado.... Queria saber se era real, então os outros precisavam ver também.
- Eu sei, eu entendo...
- Eu estava achando mesmo que era maluquice minha, quando percebi que você não estava mais lá... Aí, quando você apareceu de novo lá em casa, eu vi qye não era maluquice, não, que era tudo real. Fiquei aliviado, sabia? Eras, chega tomei o fôlego de saber que eu não estava doido.
- Por que vocês pensam assim?
- Sei lá... Dá um medo...
- Pois pra mim é natural...
- Lógico! A ET aqui é você, não sou eu. Se fosse o contrário, você sentiria o mesmo.
- Pois é... O Homem da Terra não está preparado ainda pra essas revelações. Mesmo na sua idade, onde as coisas são mais fáceis de aceitar, muitos não aceitam.
- É, mas eu sei de muitos amigos meus que gostariam de te conhecer, principalmente os colegas da escola, eles são ligados nisso.
- É... Mas não fala nada, não...
- Não... Eu não vou falar, não quero que te peguem e te matem pra estudar...
- Pois é...
- Estás bem preocupada, hein, ET?
- Estou. Estou ansiosa. As mãos suadas, geladas, meu queixo está trancando de nervoso.
- Mas por quê?
- Eles acham que a minha mãe está morta. Não foi normal o que aconteceu.
- E o que aconteceu? Me conta... Estamos quase chegando e eu acho que é melhor eu saber da história direito. Talvez assim eu possa ajudar melhor, já que você me chamou pra participar disso.
- Nesse tempo que passou aqui comigo, a minha mãe me contou a história dela. Ela conheceu o meu pai em uma festa de aniversário da  amiga dela. Conversaram, ficaram amigos e começaram a sair juntos. Na casa dela ninguém sabia de nada, era um namoro secreto. A amiga dela, Aurora, era que acobertava tudo. Quando a minha mãe perguntou pra ele de onde ele era, de onde ele tinha vindo, ele disse "do céu, de Capella". Ela perguntou querendo saber o lugar de onde ele era nativo, onde tinha nascido, porque ele falava enrolado, parecia gringo. E ele disse “vim do céu, de Capella”. E ficou por isso mesmo. Um dia, o irmão da minha mãe viu os dois e disse pra minha avó que a Enéia estava namorando “um cara muito esquisito e bem mais velho que ela". Minha vó deu um show. Brigou, colocou ela de castigo e disse que ela não sairia mais de casa desacompanhada, só com alguém de casa junto com ela. A Aurora estava fora dessa regra, que a amiga da minha mãe só podia vir em casa, porém as duas não poderiam mais sair juntas como antes. Um dia, outro aniversário, dessa vez na casa da minha vó, lá no sítio. Minha mãe e a Aurora foram lá pra fora do salão onde estava ocorrendo a tal festa. Minha mãe tinha ligado pro meu pai e explicado tudo. Eles já estavam havia um bom tempo sem se ver, só se falavam pelo telefone, e escondido. Nesse dia ele falou que ia vê-la lá no sítio, marcaram tudo: ela ia fugir com ele, já estava tudo combinado. E disso nem a Aurora sabia. Minha mãe não imaginou que ele estivesse falando sério quando disse que veio do céu, que era de Capella. Ela nem sabia o que era Capella... Minha mãe e a Aurora foram lá pra fora e ficaram olhando pro portão pra vê-lo chegar. Quando a nave apareceu, minha mãe perdeu a fala, os movimentos, ficou dura, grudada no chão, assustadíssima. A Aurora, que estava bêbada, comentou "Enéia, o que é isso? Tu estás vendo o que eu estou vendo? Nossa, acho que bebi todas e mais umas". Minha mãe nada falou, estava sem fala. Não acreditava no que via. Ela estava lúcida e a Aurora, bêbada. Um raio de luz envolveu minha mãe e subiu com ela. A Aurora lá, vendo tudo, ficou muda, parada, os olhos arregalados, se estatelou no chão. Na nave, minha mãe continuava perplexa, olhando pra ele sem acreditar no que acontecia. Meu pai perguntou por que ela estava assim, ele já tinha contado tudo sobre ele pra ela, então não entendia a razão dela estar tão surpresa e tão assustada. Perguntou se ela queria voltar e ela disse que não... Então ele levou-a com ele. Ela tinha 16 anos incompletos. Faltavam poucos dias para os 16 dela. Ela gostava muito do meu pai, confiava muito nele, ficou pra lá com ele e a Aurora contou, recontou a história várias vezes e, como ela estava bêbada das misturas que tinha feito, experimentando todas as bebidas da festa, ninguém acreditou nela. Buscas foram feitas, até que se cansaram e resolveram aceitar como fuga. Também ficaram convencidos de que a Aurora, pra ajudá-la, inventara aquela história doida. Pra dar uma satisfação aos amigos, foi colocada uma nota no jornal dando minha mãe como sequestrada e depois como morta e o sumiço do corpo. Lá de Capella minha mãe sabia de tudo, ela nunca quis voltar pra cá. E, quando eu nasci, me mandaram pra cá. Meu pai faz experiências e pesquisas com humanos e ETs, leva daqui pra cá e manda de lá pra cá. Faz parte dos estudos das novas raças elaboradas. A Aurora morreu 3 anos depois do acontecido, acham que ela se matou por causa do que viu, a sua melhor sendo levada por um disco voador. Isso coloca qualquer um doido mesmo. É muito além da compreensão de vocês algo assim. Ela morreu aos 18 anos, era um ano mais nova que a minha mãe, ficou tendo alucinações e perdeu completamente o juízo. É por isso que a minha avó nunca acreditou no que ela contava quando perguntavam pra ela o que tinha acontecido. Porque achava a Aurora uma destrambelhada. No final das contas, ela era a única que estava dizendo a verdade... Não falaram mais no assunto e tudo ficou esquecido. Nunca souberam ou entenderam o que aconteceu. Isso permanece um mistério pra eles e acho que continua, porque eu fui esclarecida pela minha mãe e, no entanto, ela mesma não quis ir vê-los e muito menos esclarecer tudo. Pode ser que um dia ela se convença e faça isso, por enquanto o mistério permanece pra eles. Devido a esses fatos me preocupa muito como a minha avó me receberá, entendeu agora?
- É. Entendi. É complicado, mas acho que ela vai encarar tudo numa boa.
Parei na frente da casa dizendo: “Chegamos. É aqui. E agora?..
Ele olhou pra casa, com calma, depois olhou pra mim, prestando atenção na minha incerteza.
- Agora nós vamos lá, minha amiga.
- Ela não sabe de nada do que aconteceu com a minha mãe... Pensa que ela está morta...
- Então ela vai ficar feliz por saber que não... Que ela está viva e que você existe.
Parada, eu tomava coragem. 
- É... Vamos lá.
Tiramos os cintos de segurança, saímos do carro e caminhamos em direção à casa. Anoitecia e eu estava ali, diante da casa da minha avó, sem saber ao certo o que iria acontecer.
Beijos.

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