Eu já morei no Rio de Janeiro. Morei lá durante dois anos, na Ilha do Governador. Meu pai era militar e a cada dois anos, durante a minha infância e adolescência, morei em lugares diferentes. Aos onze anos de idade morei em Curitiba, onde aconteceram aquelas coisas que já contei aqui: a luz, a bola luminosa rolando no céu, e da pedra que rolava na gaveta, na hora da chuva com trovão. Sempre me aconteceram coisas assim, que eu não sabia explicar, elas aconteciam.
No Rio de Janeiro, a vila ficava no Morro do Carico, era bem movimentada, as casas todas ocupadas, morava muita gente. Eu morava na penúltima casa, do lado direito de quem subia na vila. A casa ficava no alto, tinha um pé de castanhola que o pessoal chama chapéu de coro, ao lado da casa. E um pé de amora no quintal. Eu estudava à noite, saída de casa cinco e meia da tarde e ia lá pro Castelo, onde ficava o Colégio Pedro II – a Sede. Voltava às 23 horas, ou meia noite. Era longe, uma viagem.
Na Vila eu tinha uma turma de amigos, nós brincávamos juntos – jovens – fazíamos festinhas e reuniões aos sábados à noite, que não tinha escola no outro dia e podíamos ficar até mais tarde nos divertindo.
Um dia, que não fui à aula durante a semana, uma das meninas (a Marília) foi lá em casa conversar comigo. Sentamos na escada, em frente da casa, lá em cima. Conversávamos quando passou um rapaz de óculos, a cabeça baixa, olhando para o chão. Ele passou e entrou na última casa, ao lado da minha. Vi quando ele subiu as escadas, abriu a porta e entrou na casa. Perguntei pra Marília: “Quem é esse?”
– Um cara que mora aí... Ele não fala com ninguém. – Ela me respondeu.
– Eu nem sabia que morava gente aí, a casa vive no escuro, no silêncio, fechada.
– Ele mora aí, é seu vizinho. Desconfiado, foge de todo mundo... – Ela comentou.
Um dia eu ia lá pra casa da Marília e vi o rapaz vindo lá de baixo, entrando na vila. Tive a ideia de esperar ele passar. Fiquei meio escondida no muro e quando ele se aproximou, fiz que estava saindo bem na frente dele. Ai eu disse: “Oi, que susto!”
Ele me olhou todo desconfiado, ajeitando os óculos. Estava com os braços cheios de livros. Eu disse:
– Estudas tudo isso?
– Não, são livros de leitura, não de estudos.
Eu perguntei: “Tu gostas de ler?”
E ele respondeu: “Muito. Eu tenho uma biblioteca enorme.”
– Nossa, eu também adoro ler, mas não tenho biblioteca.
– Se quiser, eu posso te emprestar livros. Quer?
– Quero, eu sou a Ana.
– Vamos aqui em casa, você pode escolher o que quiseres pra ler.
Quando entramos, havia uma senhora sentada na sala, vendo TV. E ele disse: “Oi, vovó, essa é a Ana, nossa vizinha. Ela vai entrar para ver a minha biblioteca.”
– Seja bem vinda, Ana, fique à vontade. – ela disse.
Fomos para o quarto dele, onde ficava a biblioteca. Uma parede inteira de livros, todos arrumadinhos, organizados.
– Olha, nunca pensei que fosse assim! Achei que eram alguns livros, e só. – eu comentei.
Ele sorriu, todo desconfiado, ajeitou os óculos e disse: “pode escolher o que quiser pra ler, tem livro sobre tudo.”
– Acho melhor tu me dizeres um bom aí, que já tenhas lido e que sabes que é bom.
Ele escolhei uns livros lá e me deu, dizendo que eram bons.
– Não, quero só um, depois eu pego os outros.
– Então leva esse aqui.
No quarto tinha uma mesa, e em cima da mesa tinha um livro: “Eram os Deuses Astronautas?” de Erich von Däniken. Ao ver o livro, lembrei da minha tia, e falei pra ele: “Tu tens esse livro? Já lestes?”
“Já.”, ele disse.
– Então me empresta esse?”
“Pode pegar”, ele falou.
“E esse outro grandão aqui?” perguntei.
– Este é a Bíblia.
– Tu estas lendo?
– Estava procurando umas passagens que mencionem aparições de naves voadoras, chamas, vimanas, carruagens de fogo, essas coisas.
– Tu gostas desses assuntos?
– Porque? Tu gostas?
– Eu adoro olhar o céu e lembrar das histórias que a minha tia me contava lá em Belém.
– Ah, é? Que histórias?
Aí eu falei dos extraterrestres vindos de Capela, e começamos uma longa conversa sobre ETs.
A avó deles trouxe lanche pra nós. A partir desse dia, nossas conversas eram constantes.
A avó e a mãe dele gostaram muito de mim, porque eu fazia o menino falar, sorrir, sair de casa. Elas me agradeciam por eu ter me tornado amiga dele.
No dia que ele saiu pra ir buscar pão lá embaixo, na padaria, a mãe dele me contou que ele era adotado. Foi adotado já crescidinho. Sempre fora assim, calado, tímido, vivia dentro do quarto lendo, não tinha amigos, não falava com ninguém, vivia isolado. Mesmo em casa, ele era de difícil comunicação com eles. O pai dele viajava muito, era aviador, e a mãe disse que gostaria de ver ele se entrosar conosco, porque éramos uma turma alegre, de jovens, e ele bem que podia fazer parte dessa turma.
No sábado nós sempre nos reuníamos, cada vez na casa de um. Fazíamos suco, ponche, sanduíche, pastel, cada um fazia uma coisa para reunião. Nós ouvíamos música, dançávamos, nos divertíamos. E nesse sábado, eu decidi convida-lo para participar da nossa reunião, que neste dia era na minha casa. O pessoal chegou e eu disse pra Marília: “vou buscar o meu amigo do lado pra vir na reunião.” A Marília perguntou, “que amigo?” Eu respondi: “aquele cara caladão que não fala com ninguém, sabe? Pois comigo ele fala, somos amigos.”
A Marília perguntou: “De onde ele é?”
– Aqui da casa do lado, tu que mostrastes ele, lembra?
E a Marília, admirada: “Eu? Fui eu?!? Não conheço cara nenhum que mora aí do lado... Não mora ninguém aí nessa casa. Ela está sozinha desde que nos mudamos pra cá.”
E eu: “O que? Ah, Marília, deixa de graça! Vamos lá!”
– Não tem ninguém aí, Ana.
– Marília, mora um cara ali com a avó, a mãe, o pai é piloto. Ele passava por aqui todo dia, chegando da aula, e tu me mostrastes ele, não te lembras?
E ela me olhando, disse: “Tu sonhastes.”
Aí eu saí, e fui lá na casa. Estava toda fechada. Voltei.
– Acho que eles saíram...
A Marília: “Tu és teimosa, eu já disse, essa casa está fechada há muito tempo.”
Não insisti mais com ela.
Eu nunca entendi o que foi isso, só sei que nunca mais vi ninguém ali naquela casa. Todo dia de noite, eu olhava pra lá, e estava sempre fechada e escura. Nunca me lembro de visto luz lá, aparecendo, realmente. Mas lá dentro, quando eu entrava, tinha luz, tinha gente.
Nunca mais vi o rapazinho chamado Juarez. Mas o livro “Eram os Deuses Astronautas?” está comigo, pra confirmar que eu estive lá.
Isso me marcou muito. Desde então, eu me afastei das pessoas. Comecei a ler tudo sobre OVNIs, ETS, a Bíblia e tudo o que podia, sempre sobre os fenômenos e aparições. Me tornei uma estudiosa desses assuntos e pesquiso tudo. Nunca vi um disco voador, mas já tive muitas coisas esquisitas acontecendo comigo. Minhas conversa com esse rapazinho, foram muito boas, ele sabia muito sobre isso.
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