Eu também não precisava aprender
nada na aula, pois eu já sabia tudo, vinha tudo na minha cabeça. Eu dizia e
estava certo e era capaz de responder toda e qualquer pergunta que fizessem.
Eu só falava na aula para
responder às questões dos professores e durante o resto do tempo eu era calada,
observando as crianças terráqueas. Aprendendo. Não brincava com ninguém e, à
noite, na cama, eu me cobria da cabeça aos pés com medo daquelas pessoas
esquisitas que vinham me visitar e conversar comigo, ao pé da cama.
Algumas vezes eu entendia tudo o
que eles diziam, em outras, não. Eu podia ouví-los também na minha cabeça,
quando não falavam nada. Eu ouvia seus pensamentos. Até que numa noite
disseram: “levanta e sai...”
Nesta madruga eu saí do orfanato
numa boa, com os portões fechados, passando por cadeados sem nem precisar
abri-los. Eu não sabia que era capaz de fazer isso, descobri nesta hora. Então
eu quis saber: “Quem sou eu?... Por que meu nome não é igual ao das outras
crianças? Por que eu não sou igual a elas?..”
Eles me disseram quase
tudo. Que eu não era daqui e de onde eu era, como eu tinha vindo. Só não me
disseram a razão. Falavam na minha cabeça. Mostraram-me como é lá em Capella,
pude ver a minha casa e a minha família – pai, mãe e irmãos. Fiquei muito
triste porque eu queria estar lá.
Eu adquiri muitos hábitos da
Terra e isto me condena à solidão. Não posso ir pra lá. Fiquei muito triste
tentando saber porque fizeram isso comigo, me separando deles e logo entendi
que porque eu era a mais bonitinha do planeta , faltando bem pouco para ser
humana – é verdade – e que eu não assustaria ninguém na Terra. Descobri que sou
uma híbrida do meu pai com uma terráquea. Minha mãe, que agora vive lá no nosso
planeta, aqui na Terra era uma das mais capazes de se adaptar ao meu planeta
natal. Eles só levaram para lá os mais parecidos conosco, para poder
repovoar a Terra com híbridos melhores e bem semelhantes aos humanos.

Aquela foi uma longa noite de
revelações pra mim, na qual fiquei sabendo de praticamente tudo a meu respeito.
Passei o dia seguinte escondida no mato até anoitecer novamente. Nesta segunda
noite eles só me disseram: “Vai em frente...”
Eu segui. O ano passou rápido e
logo eu havia crescido bastante, já tinha 15 anos. Eu me vestia e me comportava
como uma jovem da Terra. Tinha a mesma postura, os mesmo trejeitos,
praticamente uma terráquea de 15 anos igual à todas as outras. Entretanto, se
olhassem atentamente para mim, se prestassem atenção aos meus traços –
exóticos, marcantes – é possível notar algo que eu sou diferente. É por isso
que eu não deixo as pessoas me olharem muito.
Eu me transformei da noite para o
dia, amadureci a olhos vistos, a criança ficou pra trás. Bem, eu já andava
mesmo querer saber quem eu era desde os 12 anos. Eu implicava com o meu nome,
queria saber a razão de não me chamar Maria ou Luiza ou Joana como as outras
meninas que eu conhecia. Todos achavam meu nome estranho e faziam cara de
“credo!” quando perguntavam o meu nome e eu dizia: “Etnéia”.
Eu era muito feia quando pequena,
depois dei uma melhorada – o ar do planeta, o ambiente, foi me mudando. Hoje a
minha aparência é muito boa.
Beijos.
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