sábado, 21 de janeiro de 2012

Quando e como descobri mais sobre mim

Oi, como eu já contei, eu saí do orfanato aos 14 anos. Foi lá no orfanato que comecei a notar que eu não era igual às outras crianças... Eu tinha crescido e já observava que eu não podia comer – ou melhor, não precisava comer. Se eu quisesse ficar sem comer por dias eu ficava, porque me alimentava de energia.
Eu também não precisava aprender nada na aula, pois eu já sabia tudo, vinha tudo na minha cabeça. Eu dizia e estava certo e era capaz de responder toda e qualquer pergunta que fizessem.
Eu só falava na aula para responder às questões dos professores e durante o resto do tempo eu era calada, observando as crianças terráqueas. Aprendendo. Não brincava com ninguém e, à noite, na cama, eu me cobria da cabeça aos pés com medo daquelas pessoas esquisitas que vinham me visitar e conversar comigo, ao pé da cama.
Algumas vezes eu entendia tudo o que eles diziam, em outras, não. Eu podia ouví-los também na minha cabeça, quando não falavam nada. Eu ouvia seus pensamentos. Até que numa noite disseram: “levanta e sai...”
Nesta madruga eu saí do orfanato numa boa, com os portões fechados, passando por cadeados sem nem precisar abri-los. Eu não sabia que era capaz de fazer isso, descobri nesta hora. Então eu quis saber: “Quem sou eu?... Por que meu nome não é igual ao das outras crianças? Por que eu não sou igual a elas?..
Eles me disseram quase  tudo. Que eu não era daqui e de onde eu era, como eu tinha vindo. Só não me disseram a razão. Falavam na minha cabeça. Mostraram-me como é lá em Capella, pude ver a minha casa e a minha família – pai, mãe e irmãos. Fiquei muito triste porque eu queria estar lá.
Eu adquiri muitos hábitos da Terra e isto me condena à solidão. Não posso ir pra lá. Fiquei muito triste tentando saber porque fizeram isso comigo, me separando deles e logo entendi que porque eu era a mais bonitinha do planeta , faltando bem pouco para ser humana – é verdade – e que eu não assustaria ninguém na Terra. Descobri que sou uma híbrida do meu pai com uma terráquea. Minha mãe, que agora vive lá no nosso planeta, aqui na Terra era uma das mais capazes de se adaptar ao meu planeta natal. Eles só levaram  para lá os mais parecidos conosco, para poder repovoar a Terra com híbridos melhores e bem semelhantes aos humanos.

Aquela foi uma longa noite de revelações pra mim, na qual fiquei sabendo de praticamente tudo a meu respeito. Passei o dia seguinte escondida no mato até anoitecer novamente. Nesta segunda noite eles só me disseram: “Vai em frente...
Eu segui. O ano passou rápido e logo eu havia crescido bastante, já tinha 15 anos. Eu me vestia e me comportava como uma jovem da Terra. Tinha a mesma postura, os mesmo trejeitos, praticamente uma terráquea de 15 anos igual à todas as outras. Entretanto, se olhassem atentamente para mim, se prestassem atenção aos meus traços – exóticos, marcantes – é possível notar algo que eu sou diferente. É por isso que eu não deixo as pessoas me olharem muito. 
Eu me transformei da noite para o dia, amadureci a olhos vistos, a criança ficou pra trás. Bem, eu já andava mesmo querer saber quem eu era desde os 12 anos. Eu implicava com o meu nome, queria saber a razão de não me chamar Maria ou Luiza ou Joana como as outras meninas que eu conhecia. Todos achavam meu nome estranho e faziam cara de “credo!” quando perguntavam o meu nome e eu dizia: “Etnéia”.
Eu era muito feia quando pequena, depois dei uma melhorada – o ar do planeta, o ambiente, foi me mudando. Hoje a minha aparência é muito boa. 
Beijos. 

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