- Hei... Você aí em
cima...
Olhei para baixo. Era um adolescente olhando pra cima.
- Oi, me dá um pouco
de água... Estou perdido, morrendo de sede.
Eu desci com uma garrafinha de água e dei a ele. Ele, me
olhando, pasmo:
- Como fez isso? Você
voou?
Enquanto ele abria a tampa da garrafinha, eu subi e sentei
na janela outra vez. Ele bebeu a água e olhou pra cima:
- Pode me ajudar? Eu
me perdi, estou quase desmaiando... Saí com uma turma da escola em acampamento
e me perdi...
Eu, olhando pra baixo, lá de cima. Ele continuou:
Eu, olhando pra baixo, lá de cima. Ele continuou:
- Por favor... Estou
morto de fome, pode me ajudar?...
Então eu disse a ele:
- Sobe. Tem uma escada
aí do lado... Vem pro terraço e do terraço põe a escada aqui na janela e sobe
mais...
Ele fez isso. Lógico que eu providenciei as escadas e ele
veio, entrou pelo terraço aberto e depois pelo coberto. Passou pela porta e
parou, olhando o lugar:
- Olha! Maneiro aqui! Você
mora aqui, é? Sozinha?
Ele tirou a mochila das costas e sentou no chão. Não parava
de falar:
- Nossa! Não tem
cadeira, mesa, nada aqui? Móvel nenhum?.. Só esses equipamentos, é?
Peguei o meu jantar e
dei a ele.
- Uau! Cheeseburger!
Batata frita! No meio desse mato todo? Como pode? Estou sonhando... Só posso
estar sonhando!
Ele abriu o sanduiche, mordeu, fechou os olhos.
- Hummmm! É de
verdade... Não é sonho, não...
Disse isso com a boca cheia e enfiou batatas na boca,
ficando com um bochechão.
- Devagar aí, rapaz...
Não vai morrer engasgado, hein... Olha lá.
Ele olhava pra mim, curioso. Reparava em tudo. Abri o freezer
e peguei uma caixinha de suco. Dei pra ele.
- Caramba!!! Lanche completo,
até suco de caixinha, água de garrafinha... Quem é você, hein?
Pensei “Ah. Esses
humanos cheios de perguntas”. Então respondi, tranquila.
- Sou uma ET.
Ele tirou os olhos do lanche e me encarou, incrédulo.
- Ah! Ra, rá, rá....
Gostei! - Antes de continuar com as
perguntas, mordeu mais uma vez o sanduíche e, de boca cheia, continuou:
- Está acampando
também?
- Não... Eu moro aqui.
– Respondi, pacientemente.
- Você é uma ET?
Ele tomou o suco.
- Sou.
O gatinho apareceu.
- Olha! Um gato...
Você come gatos, que nem o Alf?
- Quem é o Alf?
- O ET da televisão...
- ET da televisão?
- É... O Alf, o
ETeimoso... Não conhece? Passa na Nick de madrugada.
- ETeimoso? Não, não
conheço. Não sabia que tinha ET na TV.
- É um programa, de
mentira o ET...
- Ah, mas eu sou de
verdade...
- Ah! Qual é. Tá
brincando... – E sorriu. - Essas
coisas elétricas funcionam?
Liguei a TV.
- Olha! Funciona
mesmo, como pode? Tem energia aqui no meio do nada?
- Eu não preciso de
energia. Sou uma ET. Sou um gerador
de energia.
Ele me olhando.
- Nossa! Estou
começando a acreditar... Você é séria... Tá falando sério mesmo? TV, som, DVD...
Tudo funcionando sem tomadas e sem luz... Sanduiche completo, até salada...
Desce e sobe voando... Tou é ficando com medo, já...
- Não precisa... Fica
calmo, sou amiga. Boazinha.
Ele me olhando, veio com essa:
- Eu já estava lascado
mesmo, perdido no mato... Ia morrer de qualquer jeito, então se me matar é a
mesma coisa... Eu não tinha chance, não ia sair daqui com vida... Eles só
voltam daqui a três dias e só aí que dariam falta de mim... Eu já estaria
morto...
“Como você se perdeu?”,
perguntei.
- Os caras começaram a
implicar comigo... Eles não gostam de mim, não sei por que... Sou daqueles que
fica de fora de tudo, sabe? Começaram a tirar sarro, me chamaram de um bocado
de coisas... Aí eu resolvi voltar pra casa, achei que sabia o caminho e me
perdi... Vim parar aqui...
Ele não tirava os olhos de mim.
- Você é uma ET mesmo
ou está brincando comigo?
- Sou uma ET.
- Tá. Como é o teu
nome?
- Etnéia.
- Nossa! Que nome...
Quer dizer, não que seja feio, mas nunca ouvi um nome assim, sabe...
Ele deu uma olhada em volta, em busca de outras pistas,
procurando algo que o ajudasse a digerir aquela história. Encontrou os meus
livros e olhou pra eles com atenção. “Você
gosta de ler, né?”, perguntou, enquanto se aproximava da estante e reparava
nos títulos.
- Gosto. Muito.
- Gosto. Muito.
- Eu também... Sou
ligadão nesses assuntos de anjos, fim do mundo e ETs. Sempre quis ver um ET, sabia?
Mas eu não achei que era assim... Achei que era aquele zolhão, cara comprida,
cinzento... Não assim, uma pessoa.
- Esses aí são outra
raça...
- Mas tem ET mesmo, de
verdade?
“Eu. Sou. Uma. ET. De verdade...” Acho que ele entendeu que
eu estava ficando cansada de repetir aquilo. Ele olhou pra mim enquanto eu falava, enfática,
e sua cara ainda era a de quem não estava acreditando. Então ele voltou a falar
sobre os livros.
- Eu até trouxe livros
pro acampamento... Tenho um legal aqui... Esse você não tem ali. O cara é um ET
também, é gente assim, “normal”, e perseguem ele pra... Bom, é melhor você ler
o livro. Eu já li, vou te dar....
Ele abriu a mochila, tirou o livro e me deu. Olhei o nome: Eu sou o Número Quatro.
- Você vai gostar...
Você está se escondendo também?
- Não. Por que?
- Sozinha aqui nessa
mata toda... Ele está se
escondendo... – Apontou para o livro. Então deitou-se no chão, colocou a
cabeça na mochila, improvisando um travesseiro.
- Essa TV é lindona...
Liga aí, vai...
Liguei e perguntei a ele qual canal gostaria de assistir. Ele
me encarou, espantado.
- O que? Funciona sem
tomada, e ainda é a cabo? Não... Pirei! É demais! Acho que me perdi no mato,
desmaiei, tô em coma...
- Põe no 44 , no Nick.
- Primeiro você vê o seu canal, depois eu troco pra Hellen Degeneres, que toda noite eu a vejo.
- Primeiro você vê o seu canal, depois eu troco pra Hellen Degeneres, que toda noite eu a vejo.
- Ah, eu também gosto
da Hellen, ela é maneira, eu assisto também.
Com a boca, ele fez o som da música que abre o programa
dela. Sorriu e disse:
- Legal. Um ET que
gosta de Hellen Degeneres...
Ele se calou vendo a TV. Fui me sentar na janela, olhando o céu. Entrei quando anoiteceu, sentei no chão folheando o livro que ele me deu e quando levantei a cabeça pra falar com o garoto, ele estava dormindo.
Estava cansado, faminto. Devorou o sanduíche num instante e agora estava dormindo tranquilamente. Aproveitei para sair e comprar outro jantar pra mim, porque ele tinha comido o meu. Comprei dois, completos. Um pra mim, um pra ele. Talvez na madrugada ele acordasse com fome. Comprei também tortinhas de banana e de maçã. Fui, voltei, comi sossegada e ele lá, no maior sono. Capotou, como vocês dizem. Assisti ao programa da Hellen e depois dei uma lida no livro que ele me deu. Gostei bastante. Fui dormir.
No outro dia, pela manhã, ele se sentou, todo atrapalhado,
sem saber onde estava. Olhou pra mim fazendo careta, fechando um olho e me olhando com o outro, colocando a mão na frente do rosto pra fazer sombra por causa da
claridade.
- Oi. você tá aí? Você
existe mesmo? Eu não sonhei, não? Achei que estava sonhando aquela hora...
Eu sorri. O sanduíche extra que comprei, imaginando que ele
comeria à noite, acabou virando um café da manhã. Dei a bandeja pra ele com o sanduíche,
as batatas, a maçã e uma tortinha. Deixei a salada pra eu mesma comer mais
tarde. Disse a ele: “Olha, tem café com
leite também. Está quentinho.”
- Tem?
- Tenho uma cafeteira.
- Isso é o máximo.
Ninguém vai acreditar quando eu contar isso.
- Não, não mesmo.
Ele comeu tudo na mesma avidez, com uma fome doida. Quando
acabou, pegou a maça e me olhou, dizendo: “Estava
ótimo, vou guardar a maçã pra depois.”
- Agora vamos.
- Pra onde? – ele
perguntou, espantado.
- Vou leva-lo lá ao
acampamento.
- Mas já?
- É, vamos.
- Por que? Não posso
ficar mais um pouco? É tão bom, tão legal aqui. Uma ET que mora na mata.
Fantástico isso! Deixa eu ficar mais um pouco...
Interrompi: “Vamos, você
não pode ficar aqui mais tempo.”
- Por que?
- Vamos, cara!
Ele levantou, pegou a mochila e logo estávamos lá embaixo.
- Como você fez isso?
- É por aqui, vamos.
Fomos andando.
- Eu posso voltar
aqui?
- Se você achar o
caminho...
Quando chegamos lá, os garotos todos correram e o rodearam,
dizendo, em coro: “Olha, ele voltou!”
- É, eu me perdi na
mata. Aí achei a casa de uma ET que mora aqui na floresta... A minha amiga
aqui...
Quando ele se virou para me mostrar aos outros, não tinha
nada. Eu estava invisível, lógico. Não tinha nada pra mostrar. Ele ficou
surpreso, olhou pros outros, pros lados.
- Vocês não viram? Não
tinha uma ET comigo aqui?
- Eu juro! Uma ET que
mora no mato! Me trouxe aqui. Eu, eu...
Eles olhando e tirando uma onda. Ele meteu a mão no bolso e
tirou a maçã. Sorriu, triunfante.
- Essa maçã foi ela
quem me deu!
A maçã! Eu tinha esquecido que ele guardara pra comer
depois. Não podia fazer a maçã desaparecer agora, senão iam saber que era
verdade o que ele dizia... Aí iam bater aquele mato todo atrás de mim... Era
melhor permanecer o mistério da maçã. Ele mostrava a maçã pra eles dizendo:
- A maçã. Onde eu ia
arrumar uma maçã perfeita dessas? No mato?
Um deles:
- Em um pé de maçã, no
mato.
E se viraram todos, indo cada um cuidar das suas coisas. Ele
lá gritando, insistindo.
- Vocês têm que
acreditar! É verdade!
E se virava pra mata e dizia:
- ET? Ô ET! Aparece aí
pra eles verem que é verdade. ET!
E se voltava para eles de novo.
De repente, ele teve uma ideia: ”Ei! Já sei! Posso levar vocês lá!”
Todos se interessaram de novo e vieram até ele. Pensei “Hum, arrumei problemas.”
- Vamos por aqui...
– Dizia ele aos outros. – É pra lá.
Foram. Eles passaram a manhã toda tentando achar o caminho.
E cada vez que se aproximavam do certo, eu os desviava... Até que desistiram...
Voltei pra casa cansada. Por muito tempo ele vai falar nisso. Não vai esquecer
tão fácil e com certeza será um pesquisador desses assuntos. O ser humano só se
interessa pelas coisas quando elas o marcam de alguma forma, ou quando acontece
com eles.
Beijos!






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