segunda-feira, 26 de março de 2012

Perdendo-se, encontrou o que mais queria.

Hoje, lá pelas cinco horas, mais ou menos, eu tinha acabado de chegar com o meu jantar (vou sempre nesta hora comprar o meu cheese) sentei na janela balançando as pernas, quando ouvi:
- Hei... Você aí em cima...
Olhei para baixo. Era um adolescente olhando pra cima.
- Oi, me dá um pouco de água... Estou perdido, morrendo de sede.
Eu desci com uma garrafinha de água e dei a ele. Ele, me olhando, pasmo:
- Como fez isso? Você voou?
Enquanto ele abria a tampa da garrafinha, eu subi e sentei na janela outra vez. Ele bebeu a água e olhou pra cima:
- Pode me ajudar? Eu me perdi, estou quase desmaiando... Saí com uma turma da escola em acampamento e me perdi...
Eu, olhando pra baixo, lá de cima. Ele continuou:
- Por favor... Estou morto de fome, pode me ajudar?...
Então eu disse a ele:
- Sobe. Tem uma escada aí do lado... Vem pro terraço e do terraço põe a escada aqui na janela e sobe mais...
Ele fez isso. Lógico que eu providenciei as escadas e ele veio, entrou pelo terraço aberto e depois pelo coberto. Passou pela porta e parou, olhando o lugar:
- Olha! Maneiro aqui! Você mora aqui, é? Sozinha?
Ele tirou a mochila das costas e sentou no chão. Não parava de falar:
- Nossa! Não tem cadeira, mesa, nada aqui? Móvel nenhum?.. Só esses equipamentos, é?
 Peguei o meu jantar e dei a ele.
- Uau! Cheeseburger! Batata frita! No meio desse mato todo? Como pode? Estou sonhando... Só posso estar sonhando!
Ele abriu o sanduiche, mordeu, fechou os olhos.
- Hummmm! É de verdade... Não é sonho, não...
Disse isso com a boca cheia e enfiou batatas na boca, ficando com um bochechão.
- Devagar aí, rapaz... Não vai morrer engasgado, hein... Olha lá.
Ele olhava pra mim, curioso. Reparava em tudo. Abri o freezer e peguei uma caixinha de suco. Dei pra ele.
- Caramba!!! Lanche completo, até suco de caixinha, água de garrafinha... Quem é você, hein?
Pensei “Ah. Esses humanos cheios de perguntas”. Então respondi, tranquila.
- Sou uma ET.
Ele tirou os olhos do lanche e me encarou, incrédulo.
- Ah! Ra, rá, rá.... Gostei!  - Antes de continuar com as perguntas, mordeu mais uma vez o sanduíche e, de boca cheia, continuou:
- Está acampando também?
- Não... Eu moro aqui. – Respondi, pacientemente.  
- Você é uma ET?
Ele tomou o suco.
- Sou.
O gatinho apareceu.
- Olha! Um gato... Você come gatos, que nem o Alf?
- Quem é o Alf?
- O ET da televisão...
- ET da televisão?
- É... O Alf, o ETeimoso... Não conhece? Passa na Nick de madrugada.
- ETeimoso? Não, não conheço. Não sabia que tinha ET na TV.
- É um programa, de mentira o ET...
- Ah, mas eu sou de verdade...
- Ah! Qual é. Tá brincando... – E sorriu. - Essas coisas elétricas funcionam?
Liguei a TV.
- Olha! Funciona mesmo, como pode? Tem energia aqui no meio do nada?
- Eu não preciso de energia. Sou uma ET. Sou um gerador de energia.
Ele me olhando.
- Nossa! Estou começando a acreditar... Você é séria... Tá falando sério mesmo? TV, som, DVD... Tudo funcionando sem tomadas e sem luz... Sanduiche completo, até salada... Desce e sobe voando... Tou é ficando com medo, já...
- Não precisa... Fica calmo, sou amiga. Boazinha.
Ele me olhando, veio com essa:
- Eu já estava lascado mesmo, perdido no mato... Ia morrer de qualquer jeito, então se me matar é a mesma coisa... Eu não tinha chance, não ia sair daqui com vida... Eles só voltam daqui a três dias e só aí que dariam falta de mim... Eu já estaria morto...
Como você se perdeu?”, perguntei.
- Os caras começaram a implicar comigo... Eles não gostam de mim, não sei por que... Sou daqueles que fica de fora de tudo, sabe? Começaram a tirar sarro, me chamaram de um bocado de coisas... Aí eu resolvi voltar pra casa, achei que sabia o caminho e me perdi... Vim parar aqui...
Ele não tirava os olhos de mim.
- Você é uma ET mesmo ou está brincando comigo?
- Sou uma ET.
- Tá. Como é o teu nome?
- Etnéia.
- Nossa! Que nome... Quer dizer, não que seja feio, mas nunca ouvi um nome assim, sabe...
Ele deu uma olhada em volta, em busca de outras pistas, procurando algo que o ajudasse a digerir aquela história. Encontrou os meus livros e olhou pra eles com atenção. “Você gosta de ler, né?”, perguntou, enquanto se aproximava da estante e reparava nos títulos.
- Gosto. Muito.
- Eu também... Sou ligadão nesses assuntos de anjos, fim do mundo e ETs. Sempre quis ver um ET, sabia? Mas eu não achei que era assim... Achei que era aquele zolhão, cara comprida, cinzento... Não assim, uma pessoa.
- Esses aí são outra raça...
- Mas tem ET mesmo, de verdade?
“Eu. Sou. Uma. ET. De verdade...” Acho que ele entendeu que eu estava ficando cansada de repetir aquilo.  Ele olhou pra mim enquanto eu falava, enfática, e sua cara ainda era a de quem não estava acreditando. Então ele voltou a falar sobre os livros.  
- Eu até trouxe livros pro acampamento... Tenho um legal aqui... Esse você não tem ali. O cara é um ET também, é gente assim, “normal”, e perseguem ele pra... Bom, é melhor você ler o livro. Eu já li, vou te dar....
Ele abriu a mochila, tirou o livro e me deu. Olhei o nome: Eu sou o Número Quatro.
- Você vai gostar... Você está se escondendo também?
- Não. Por que?
- Sozinha aqui nessa mata toda... Ele está se escondendo... – Apontou para o livro. Então deitou-se no chão, colocou a cabeça na mochila, improvisando um travesseiro.
- Essa TV é lindona... Liga aí, vai...
Liguei e perguntei a ele qual canal gostaria de assistir. Ele me encarou, espantado.
- O que? Funciona sem tomada, e ainda é a cabo? Não... Pirei! É demais! Acho que me perdi no mato, desmaiei, tô em coma...
- Que canal?
- Põe no 44 , no Nick. 
- Primeiro você vê o seu canal, depois eu troco pra Hellen Degeneres, que toda noite eu a vejo.
- Ah, eu também gosto da Hellen, ela é maneira, eu assisto também.
Com a boca, ele fez o som da música que abre o programa dela. Sorriu e disse:
- Legal. Um ET que gosta de Hellen Degeneres...

Somewhere Only We Know by Keane on Grooveshark

 Ele se calou vendo a TV. Fui me sentar na janela, olhando o céu. Entrei quando anoiteceu, sentei no chão folheando o livro que ele me deu e quando levantei a cabeça pra falar com o garoto, ele estava dormindo.

Estava cansado, faminto. Devorou o sanduíche num instante e agora estava dormindo tranquilamente. Aproveitei para sair e comprar outro jantar pra mim, porque ele tinha comido o meu. Comprei dois, completos. Um pra mim, um pra ele. Talvez na madrugada ele acordasse com fome. Comprei também tortinhas de banana e de maçã. Fui, voltei, comi sossegada e ele lá, no maior sono. Capotou, como vocês dizem. Assisti ao programa da Hellen e depois dei uma lida no livro que ele me deu. Gostei bastante. Fui dormir.
No outro dia, pela manhã, ele se sentou, todo atrapalhado, sem saber onde estava. Olhou pra mim fazendo careta, fechando um olho e me olhando com o outro, colocando a mão na frente do rosto pra fazer sombra por causa da claridade.
- Oi. você tá aí? Você existe mesmo? Eu não sonhei, não? Achei que estava sonhando aquela hora...
Eu sorri. O sanduíche extra que comprei, imaginando que ele comeria à noite, acabou virando um café da manhã. Dei a bandeja pra ele com o sanduíche, as batatas, a maçã e uma tortinha. Deixei a salada pra eu mesma comer mais tarde. Disse a ele: “Olha, tem café com leite também. Está quentinho.
- Tem?
- Tenho uma cafeteira.
- Isso é o máximo. Ninguém vai acreditar quando eu contar isso.
- Não, não mesmo.
Ele comeu tudo na mesma avidez, com uma fome doida. Quando acabou, pegou a maça e me olhou, dizendo: “Estava ótimo, vou guardar a maçã pra depois.”
- Agora vamos.
- Pra onde? – ele perguntou, espantado.
- Vou leva-lo lá ao acampamento.
- Mas já?
- É, vamos.
- Por que? Não posso ficar mais um pouco? É tão bom, tão legal aqui. Uma ET que mora na mata. Fantástico isso! Deixa eu ficar mais um pouco...
Interrompi: “Vamos, você não pode ficar aqui mais tempo.
- Por que?
- Vamos, cara!
Ele levantou, pegou a mochila e logo estávamos lá embaixo.
- Como você fez isso?
- É por aqui, vamos.
Fomos andando.
- Eu posso voltar aqui?
- Se você achar o caminho...
Quando chegamos lá, os garotos todos correram e o rodearam, dizendo, em coro: “Olha, ele voltou!”
- É, eu me perdi na mata. Aí achei a casa de uma ET que mora aqui na floresta... A minha amiga aqui...
Quando ele se virou para me mostrar aos outros, não tinha nada. Eu estava invisível, lógico. Não tinha nada pra mostrar. Ele ficou surpreso, olhou pros outros, pros lados.
- Vocês não viram? Não tinha uma ET comigo aqui?
Risada geral do grupo.
- Eu juro! Uma ET que mora no mato! Me trouxe aqui. Eu, eu...
Eles olhando e tirando uma onda. Ele meteu a mão no bolso e tirou a maçã. Sorriu, triunfante.
- Essa maçã foi ela quem me deu!

A maçã! Eu tinha esquecido que ele guardara pra comer depois. Não podia fazer a maçã desaparecer agora, senão iam saber que era verdade o que ele dizia... Aí iam bater aquele mato todo atrás de mim... Era melhor permanecer o mistério da maçã. Ele mostrava a maçã pra eles dizendo:
- A maçã. Onde eu ia arrumar uma maçã perfeita dessas? No mato?
Um deles:
- Em um pé de maçã, no mato.
E se viraram todos, indo cada um cuidar das suas coisas. Ele lá gritando, insistindo.
- Vocês têm que acreditar! É verdade!
E se virava pra mata e dizia:
- ET? Ô ET! Aparece aí pra eles verem que é verdade. ET!
E se voltava para eles de novo.
- Eu juro! É verdade!
De repente, ele teve uma ideia: ”Ei! Já sei! Posso levar vocês lá!
Todos se interessaram de novo e vieram até ele. Pensei “Hum, arrumei problemas.
- Vamos por aqui... – Dizia ele aos outros. – É pra lá.
Foram. Eles passaram a manhã toda tentando achar o caminho. E cada vez que se aproximavam do certo, eu os desviava... Até que desistiram... Voltei pra casa cansada. Por muito tempo ele vai falar nisso. Não vai esquecer tão fácil e com certeza será um pesquisador desses assuntos. O ser humano só se interessa pelas coisas quando elas o marcam de alguma forma, ou quando acontece com eles.

Beijos!

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