Oi! Foi um tempo confuso este que eu passei entre
os humanos. Difícil compreendê-los, mesmo levando tudo na brincadeira e aceitando
sem reagir as suas graças. Senti depois deste episódio que era difícil pra mim
não ter atitudes e reações assim com eles. E eu não queria machucar ninguém.
Eles não eram páreo pra mim, não podiam se defender. E eu ia acabar machucando
alguém sem querer.
Resolvi dar um tempo na minha convivência com eles.
Fui criança de orfanato, tive uma infância péssima.
Fui adolescente patricinha lá com o João e a Glória – foi ótimo. Eu era tratada
como filha. O pai deles vivia encantado com a minha inteligência e a mãe com a
minha habilidade pra fazer tudo e qualquer coisa.
Me apresentavam como filha
deles para as visitas e eu preparei muitos e deliciosos jantares para nós – a família
foi uma família mesmo. Uma juventude e tanto tive com eles, apesar do pouco
tempo – um ano. Por fim, a mocidade livre e tumultuada da faculdade. Eles
pegavam pesado nas brincadeiras horrorosas que tinham. Eu vivia sobressaltada e
fazia de tudo para não sair do sério. Eu era o Cristo, só me chamavam ET. “ET, vem cá...”, “ET, olha aqui...”. Eu evitava e em alguns momentos, sozinha,
escondida deles, ficava me acalmando para não estourar, não reagir. Foi um
tempo chato, esse. Começou legal, mas depois já não era só a minha turma, eram
todos na faculdade. Todos já me conheciam porque eles espalharam na
universidade inteira que eu era uma ET. Tinha os que tiravam graça comigo quando
eu passava, fazendo piadinhas. Tinha os que me rodeavam e tiravam sarro me
pedindo pra fazer coisas. Outros só passavam e me olhavam. Eu não tinha mais um
minuto de sossego, então eu me escondia, sumia e quando eu voltava começavam: “Foi pra Marte hoje? Como está Saturno?”
ou “Encontrou Zeus lá no Olimpo?”. Só
besteiras. Comecei a me chatear, ficar intolerante, mas como eram brincadeiras,
eu fui aguentando, até esse dia em que vi a covardia dos seis contra um. Eles
iam detonar o professor e ninguém ia ficar sabendo depois quem tinha feito
aquilo.
Com essa minha reação, então senti que não ia mais
poder ficar ali, os caras iam revidar quando me encontrassem e não ia dar certo,
porque eu não ia aceitar. Não machuquei ninguém naquele dia, só tirei eles de
ação. Só que não foi uma atitude normal, ninguém aqui na Terra faz isso. Chamei
a atenção sobre mim e quando aquilo se espalhasse eu seria malhada como um Judas
porque agora eles já sabiam que eu não era mesmo humana.
Saí dali na mesma hora e outra vez estava na
estrada deserta, sozinha, bolsa a tiracolo no ombro andando ao léu pela noite.
O disco voador veio me pegar.
Sentei olhando lá fora as
estrelas passando pela oclusa – janela – calada, pensando no que eu ia fazer.
Queria ir pra Capella, mas não podia. Na realidade Capella é o nosso sol.
Habitamos um pequeno planeta que orbita em torno dela. E como fui criada aqui,
não me adapto lá. Então o jeito é ficar por aqui mesmo. Mas eu adoro a Terra.
Beijos!



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