Oi! Estou morando em um sótão agora. Coloquei um frigobar,
enchi com água de coco, suco de uva, água, caixas de leite com fibras, com
frutas e só leite mesmo. Tem ainda sucos variados e leite fermentado.
Meu organismo se adaptou bem à Terra e, depois de todos
estes anos consumindo coisas daqui, me acostumei e sinto falta primeiramente
destas coisas que coloquei no frigobar – líquidos.
Eu limpei o sótão deixando só o espaço vazio em cima. Lá
embaixo não presta nada, caiu tudo. Coloquei dois colchonetes dentro de um saco
de pano no chão sobre um cobertor grosso, um abajur de pé. Aí é o meu quarto.
Coloquei um forninho para aquecer os meus sanduíches, que é um 3 em 1: forno, grill, cafeteira - eu adoro café. É tudo
elétrico.
Eu compro sempre dois cheeseburgers
– um com fritas, salada e uma maçã de sobremesa – esse é o meu jantar. O outro
é pra madrugada – só o sanduíche, sem salada, sem batatas, sem maçã... Fico
acordada até a madrugada, e como outro. Às vezes como duas tortinhas de banana
também ou mesmo de maçã – maçã, prefiro a fruta, mas às vezes trago tortas - gosto
muito de comer a maçã fruta.
A sacola tiracolo está atrás da porta com os documentos e
algum dinheiro que eles me dão para comprar o que comer. Estou aqui sozinha,
afastada do mundo. O meu iPod é a minha única companhia, além dos meus livros,
é claro.
Falei para eles que não queria mais morar com ninguém, que
agora eu queria morar só – mas tenho que ir para o meio das pessoas para eles
poderem estuda-las. Eles estudam as pessoas através de mim. Sou um computador
vivo e passo a eles todas as informações sobre tudo na Terra. A maior parte do
tempo fico como estou agora, sentada na janela com as pernas pra fora balançando-as,
olhando aqui de cima, ouvindo no meu iPod essas músicas terrestres que gosto.
Como eu já disse, sou sensivelmente musical. O som me afeta muito, me toca.
Agora vou precisar de todo o meu inglês porque estou no sul
de um lugar lindo, a Califórnia. Acho que é o sul, do sul, do sul. É longe,
viu... Lugar calmo, quieto, nem sei bem onde fica isso, mas é afastado de tudo.
Tem um bosque lindo próximo daqui – aqui atrás. Vim embora, porque não podia me
encontrar com o pessoal lá e eles iam me procurar porque coisas como as que eu
fiz com eles, só em truques de cinema... Só acontecem em estúdios de filmagem.
Agora a música, meus livros e os sanduíches serão minhas
companhias constantes. Neste momento eu estou lendo “O Diário de Anne Frank” e já está na espera “As Brumas de Avalon”, composto de 4 volumes.
Eu pedi a eles para ir embora para a casa da minha família
lá em Capella, mas eles disseram que eu devo esperar, pois ainda não acabei
aqui. Trouxeram vários livros que eu já arrumei nas duas prateleiras que deixaram
aí também. Recebi deles mais duas músicas – agora já tenho um bocado, mas eu
tenho minhas cinco preferidas.
A que estou ouvindo agora é:
O céu está lindo aqui hoje... Eu achei essa música meio
triste, mas é linda... Gostei muito. É... Os caras da nave já sabem o meu gosto
musical. Eu gosto muito de jazz também e tenho procurado um que ouvi um dia lá
com os caras da faculdade, já pedi pra o pessoal do disco voador procurar pra
mim. Eles me trouxeram uma harmônica – gosto do som da harmônica no blues – e eles
me trouxeram a harmônica e umas partituras pra tocar. Tudo isso pra matar o meu
tempo aqui.
Fiquei muito satisfeita quando achei a caixa de manhã ao
acordar. Abri e tinha os livros, a harmônica, as partituras e as músicas. Foi
ótimo.
Arrumei uma bicicleta velha que encontrei aqui na casa, lá
embaixo e ou pedalando nela até a conveniência mais próxima aqui na estrada
comprar meus sanduíches e mais alguma coisa que eu queira.
Tenho vizinhos mais lá na frente, vi os dois quando passei
por lá. Um casal de idosos. Ela na cadeira de rodas e ele com uma bengala, se
apoiando. Me cumprimentaram e ficaram me olhando interessados. Vai ver se
sentem só, isolados aqui sem poderem se locomover direito. Disseram:
- Morning!...

E eu respondi: “Morning!..”.
Na volta deixei um jornal pra ele e revistas pra ela. Ficaram satisfeitos. Agradeceram
muito e me chamaram para ir lá conversar, tomar um chá. Prometi ir... Tem mais
uma pessoa lá que faz as coisas pra eles, uma senhora nova ainda, são três lá
na casa. Então eles não estão sozinhos, têm companhia, não precisam de ajuda.
Depois do passeio voltei à minha solidão, ao meu ponto de
observação, aqui de cima, de onde também gosto de observar o céu.
A conveniência fica longe daqui, é uma boa pedalada... Os
meus vizinhos têm uma caminhonete, a senhora lá deve dirigir.
Depois dessas confusões e dessas vivências com humanos que
não deram certo, quero viver assim: só... É melhor. Vou onde eles mandarem –
porque ir daqui até a Europa ou África ou Brasil... Pra mim não é problema, num
estalar de dedos estou lá...
Não sei se vou me acostumar assim, afastada de tudo, mas não
quero mais morar com ninguém, não... Fico melhor assim, sozinha.
Porque me escondo? Vocês não sabem o que os humanos acham
dos ETs, não?... Não posso sair por aí, me mostrando. Já crianças e estudantes
é outra coisa, não vão me fazer mal nenhum, por isso convivi com eles e, mesmo
assim, não deu certo...
Agora, viver com adultos é impossível. Viu o que aconteceu
com os caras da faculdade? Não posso ficar me expondo. Ninguém pode me
descobrir senão viro cobaia e vou parar em um laboratório sendo morta e cortada
para me estudarem. Entenderam?
Beijos.

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