domingo, 12 de fevereiro de 2012

Recomeço

Oi! Estou morando em um sótão agora. Coloquei um frigobar, enchi com água de coco, suco de uva, água, caixas de leite com fibras, com frutas e só leite mesmo. Tem ainda sucos variados e leite fermentado.
Meu organismo se adaptou bem à Terra e, depois de todos estes anos consumindo coisas daqui, me acostumei e sinto falta primeiramente destas coisas que coloquei no frigobar – líquidos.
Eu limpei o sótão deixando só o espaço vazio em cima. Lá embaixo não presta nada, caiu tudo. Coloquei dois colchonetes dentro de um saco de pano no chão sobre um cobertor grosso, um abajur de pé. Aí é o meu quarto. Coloquei um forninho para aquecer os meus sanduíches, que é um 3 em 1: forno, grill, cafeteira - eu adoro café. É tudo elétrico.
Eu compro sempre dois cheeseburgers – um com fritas, salada e uma maçã de sobremesa – esse é o meu jantar. O outro é pra madrugada – só o sanduíche, sem salada, sem batatas, sem maçã... Fico acordada até a madrugada, e como outro. Às vezes como duas tortinhas de banana também ou mesmo de maçã – maçã, prefiro a fruta, mas às vezes trago tortas - gosto muito de comer a maçã fruta.
A sacola tiracolo está atrás da porta com os documentos e algum dinheiro que eles me dão para comprar o que comer. Estou aqui sozinha, afastada do mundo. O meu iPod é a minha única companhia, além dos meus livros, é claro.
Falei para eles que não queria mais morar com ninguém, que agora eu queria morar só – mas tenho que ir para o meio das pessoas para eles poderem estuda-las. Eles estudam as pessoas através de mim. Sou um computador vivo e passo a eles todas as informações sobre tudo na Terra. A maior parte do tempo fico como estou agora, sentada na janela com as pernas pra fora balançando-as, olhando aqui de cima, ouvindo no meu iPod essas músicas terrestres que gosto. Como eu já disse, sou sensivelmente musical. O som me afeta muito, me toca.
Agora vou precisar de todo o meu inglês porque estou no sul de um lugar lindo, a Califórnia. Acho que é o sul, do sul, do sul. É longe, viu... Lugar calmo, quieto, nem sei bem onde fica isso, mas é afastado de tudo. Tem um bosque lindo próximo daqui – aqui atrás. Vim embora, porque não podia me encontrar com o pessoal lá e eles iam me procurar porque coisas como as que eu fiz com eles, só em truques de cinema... Só acontecem em estúdios de filmagem.
Agora a música, meus livros e os sanduíches serão minhas companhias constantes. Neste momento eu estou lendo “O Diário de Anne Frank” e já está na espera “As Brumas de Avalon”, composto de 4 volumes.
Eu pedi a eles para ir embora para a casa da minha família lá em Capella, mas eles disseram que eu devo esperar, pois ainda não acabei aqui. Trouxeram vários livros que eu já arrumei nas duas prateleiras que deixaram aí também. Recebi deles mais duas músicas – agora já tenho um bocado, mas eu tenho minhas cinco preferidas.
A que estou ouvindo agora é:
It Never Rains In Southern California by Albert Hammond, Jr. on Grooveshark
O céu está lindo aqui hoje... Eu achei essa música meio triste, mas é linda... Gostei muito. É... Os caras da nave já sabem o meu gosto musical. Eu gosto muito de jazz também e tenho procurado um que ouvi um dia lá com os caras da faculdade, já pedi pra o pessoal do disco voador procurar pra mim. Eles me trouxeram uma harmônica – gosto do som da harmônica no blues – e eles me trouxeram a harmônica e umas partituras pra tocar. Tudo isso pra matar o meu tempo aqui.
Fiquei muito satisfeita quando achei a caixa de manhã ao acordar. Abri e tinha os livros, a harmônica, as partituras e as músicas. Foi ótimo.
Arrumei uma bicicleta velha que encontrei aqui na casa, lá embaixo e ou pedalando nela até a conveniência mais próxima aqui na estrada comprar meus sanduíches e mais alguma coisa que eu queira.
Tenho vizinhos mais lá na frente, vi os dois quando passei por lá. Um casal de idosos. Ela na cadeira de rodas e ele com uma bengala, se apoiando. Me cumprimentaram e ficaram me olhando interessados. Vai ver se sentem só, isolados aqui sem poderem se locomover direito. Disseram:
- Morning!...

E eu respondi: “Morning!..”. Na volta deixei um jornal pra ele e revistas pra ela. Ficaram satisfeitos. Agradeceram muito e me chamaram para ir lá conversar, tomar um chá. Prometi ir... Tem mais uma pessoa lá que faz as coisas pra eles, uma senhora nova ainda, são três lá na casa. Então eles não estão sozinhos, têm companhia, não precisam de ajuda.
Depois do passeio voltei à minha solidão, ao meu ponto de observação, aqui de cima, de onde também gosto de observar o céu.
A conveniência fica longe daqui, é uma boa pedalada... Os meus vizinhos têm uma caminhonete, a senhora lá deve dirigir.
Depois dessas confusões e dessas vivências com humanos que não deram certo, quero viver assim: só... É melhor. Vou onde eles mandarem – porque ir daqui até a Europa ou África ou Brasil... Pra mim não é problema, num estalar de dedos estou lá...
Não sei se vou me acostumar assim, afastada de tudo, mas não quero mais morar com ninguém, não... Fico melhor assim, sozinha.
Porque me escondo? Vocês não sabem o que os humanos acham dos ETs, não?... Não posso sair por aí, me mostrando. Já crianças e estudantes é outra coisa, não vão me fazer mal nenhum, por isso convivi com eles e, mesmo assim, não deu certo...
Agora, viver com adultos é impossível. Viu o que aconteceu com os caras da faculdade? Não posso ficar me expondo. Ninguém pode me descobrir senão viro cobaia e vou parar em um laboratório sendo morta e cortada para me estudarem. Entenderam?
Beijos. 

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