É muito bom ter uma mãe para cuidar de você à noite e fazer
uma comidinha quente e gostosa, lhe dar xarope na tosse, segurar na sua mão
quando você está com medo, se orgulhar de qualquer besteira que você faz, como
se isso fosse a coisa mais espetacular do mundo. Não tem filho mais bonito que
o dela, mesmo que você seja o mais feio da turma. De tudo o que você faz, ela
se orgulha... Isso são palavras do meu irmão Etelzinho, me contando o que é ser
mãe. Perguntei a ele o que era ser mãe e, nos seus 5 anos, ele me deu essa
posição.
Foi muito bom eles estarem aqui. Nós somos muito comedidos a
respeito de sentimento, mas eu desenvolvi em mim sentimentos muito fortes. Não
que lá sejam insensíveis, não. Somos controlados (os sentimentos tiram a razão
e nos dominam), nós não nos deixamos levar por eles. Agora, eu estou sentindo
saudades: falta.
A minha família biológica foi embora, mas a minha família
animal está aqui. Quando eu cheguei em casa – eu estava passeando na mata, pois
a mata me acalma – o Canjica e o Cosmos estavam deitados juntos, no batente da
janela, dormindo ao sol da tarde. Eles já são grandes amigos. Já eram quatro
horas e saí para comprar o meu jantar e o Canjica veio atrás de mim. Ele é
assim, quando eu levanto ele já começa a me seguir: vou para a janela e ele vai
também, Desço para andar na mata, e ele vai junto. Hoje que ele não foi,
preferiu ficar com o gato, que ainda é novidade pra ele. Mas quando eu saí para
comprar o meu jantar ele foi também. Minha sombra agora é um gato... Todo mundo
pela rua parava para nos ver passar. Eu na frente, o galo atrás, correndo, me
acompanhando. Na lanchonete foi rizada geral quando entramos. Fui ao balcão e
ele voou para o banco. O cara brincou com ele perguntando “vai beber o que?”.
Comprei o jantar e sentei pra esperar fazerem o pedido, matando o tempo tomando
uma água de coco, lá na mesa. Eu em uma cadeira e o Canjica em outra. Os
cliente riam dele. Quando o pedido ficou pronto, peguei o pacote e saí e ele
ficou lá, sentado na cadeira olhando a TV. Chamei lá da porta: “Canjica!”.
Rizada geral do nome. “Vai ficar aí?”, perguntei, e ele veio. Alguém disse: “Ela
fala com o galo e ele entende...”.
Voltamos para casa e tivemos que correr por causa da chuva.
Peguei ele no colo, corri e subi. Aproveitando que já estava molhada, cortei o
cabelo, tomei um banho e fui jantar. Fiquei com uma aparência meio esquisita
depois do corte de cabelo.
A chuva estava bastante forte. Os dois estavam lá na janela
olhando a chuva. Fui sentar lá com eles
também - gosto de fazer isso. Estava claro ainda ao entardecer. Agora somos
oito na família: o gato, o carcará, a coruja, o galo, os 3 passarinhos e eu.
Sentados, os três na janela, aproveitávamos a chuva e o anoitecer. Estava
esfriando bastante, ficando nublado. Fui vestir o meu moletom de capote e fechar
as janelas laterais, coisa que eu nunca fazia, mas a chuva estava entrando,
respingando tudo pra dentro da casa, molhando - então foi preciso fechá-las. A
coruja já estava lá no oco da árvore, dormindo, o carcará no galho dele e, no
chão, um rolo de gato e galo, pois foram se deitar, juntos. Tudo certo eu fui
ouvir um pouco de rádio, enrolada no edredom. O verão em São Paulo é época de
chuvas fortes, mas não e frio e estava esfriando bastante. Saí com chuva da costa
da Califórnia, cheguei aqui com chuva e só tem chovido.
Entrei em contato com os rapazes do disco voador e eles já
estavam recolhidos também. Eu queria falar com o pessoal lá em casa, mas não
deu, pois quem faz a conexão são eles. Então fiquei olhando a foto deles,
pensando no Etelzinho. O nome dele é Etel e ele bem que podia vir morar aqui: a
minha mãe, o Etelzinho e meu pai. Só então me dei conta que eu não sabia no
nome do meu pai... Que falta! Também, eu nem conhecia eles... Os rapazes do
disco que me disseram o nome dos meninos, meus irmãos, e o da minha mãe eu já
sabia, não sei explicar porque.
Uma luz forte passou pela janela e ouvi vozes. Uma nave
espacial menor veio trazer material para o disco voador e levar as pesquisas
para Capella. Eles sempre fazem isso e aproveitam as noites assim, chuvosas ou
sem lua, para navegar por aí. As pessoas deitam mais cedo nessas noites assim.
Depois, se elas veem alguma coisa e contam pra alguém, ninguém acredita mesmo
que viram um disco voador, porque quem vê essas coisas é tachado de criatura
doida. Por isso as pessoas se calam quando presenciam algo assim.
Meu pai me falou que as coisas estão muito sérias entre ETs
e humanos, e nós estamos em desvantagem, porque os humanos se aliaram aos
nossos inimigos e eles colocaram na mão dos homens tecnologia capaz de causar
um desastre nuclear, que atingirá todos os mais próximos e causará danos no
universo, abalando todos os sistemas. O homem é um ser ambicioso, ele enche os
olhos com qualquer coisa, sem atinar para o perigo, não mede as consequências.
Sua sede de poder é tanta que ele nem nota que, em vez de progredir, está se
destruindo. Agora ele está brincando com o clima, fazendo nuvens que gritam,
colorindo o céu, provocando tornados...
Está se sentindo um deus, controlando e
manipulando as forças da natureza. É isso mesmo que os que fingem ser seus
amigos (e lhes dá esses conhecimentos) querem: que você destruam tudo. E nós,
mais uma vez, estamos aqui para salvar os que estão fora disso.
E eles estão
seguros, dando risada, enquanto vocês se destroem. E o homem, que se diz o inteligente
do planeta, nem nota que está sendo manipulado. Ele se acha o dono absoluto da Terra...
Não sabem que só moram aqui, que isso aqui não lhes pertence.
Desliguei o rádio e fui dormir.




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