terça-feira, 10 de abril de 2012

O peso da saudade

Minha família foi embora... Só saudades. Ninguém é nada sem família. Apesar deles nunca estarem comigo como estiveram agora, foi como se sempre estivessem aqui. Me criei longe deles, mas agora foi tão próximo, como se eu tivesse me criado em casa.
É muito bom ter uma mãe para cuidar de você à noite e fazer uma comidinha quente e gostosa, lhe dar xarope na tosse, segurar na sua mão quando você está com medo, se orgulhar de qualquer besteira que você faz, como se isso fosse a coisa mais espetacular do mundo. Não tem filho mais bonito que o dela, mesmo que você seja o mais feio da turma. De tudo o que você faz, ela se orgulha... Isso são palavras do meu irmão Etelzinho, me contando o que é ser mãe. Perguntei a ele o que era ser mãe e, nos seus 5 anos, ele me deu essa posição.
Foi muito bom eles estarem aqui. Nós somos muito comedidos a respeito de sentimento, mas eu desenvolvi em mim sentimentos muito fortes. Não que lá sejam insensíveis, não. Somos controlados (os sentimentos tiram a razão e nos dominam), nós não nos deixamos levar por eles. Agora, eu estou sentindo saudades: falta.
A minha família biológica foi embora, mas a minha família animal está aqui. Quando eu cheguei em casa – eu estava passeando na mata, pois a mata me acalma – o Canjica e o Cosmos estavam deitados juntos, no batente da janela, dormindo ao sol da tarde.  Eles já são grandes amigos. Já eram quatro horas e saí para comprar o meu jantar e o Canjica veio atrás de mim. Ele é assim, quando eu levanto ele já começa a me seguir: vou para a janela e ele vai também, Desço para andar na mata, e ele vai junto. Hoje que ele não foi, preferiu ficar com o gato, que ainda é novidade pra ele. Mas quando eu saí para comprar o meu jantar ele foi também. Minha sombra agora é um gato... Todo mundo pela rua parava para nos ver passar. Eu na frente, o galo atrás, correndo, me acompanhando. Na lanchonete foi rizada geral quando entramos. Fui ao balcão e ele voou para o banco. O cara brincou com ele perguntando “vai beber o que?”. Comprei o jantar e sentei pra esperar fazerem o pedido, matando o tempo tomando uma água de coco, lá na mesa. Eu em uma cadeira e o Canjica em outra. Os cliente riam dele. Quando o pedido ficou pronto, peguei o pacote e saí e ele ficou lá, sentado na cadeira olhando a TV. Chamei lá da porta: “Canjica!”. Rizada geral do nome. “Vai ficar aí?”, perguntei, e ele veio. Alguém disse: “Ela fala com o galo e ele entende...”.
Voltamos para casa e tivemos que correr por causa da chuva. Peguei ele no colo, corri e subi. Aproveitando que já estava molhada, cortei o cabelo, tomei um banho e fui jantar. Fiquei com uma aparência meio esquisita depois do corte de cabelo.
A chuva estava bastante forte. Os dois estavam lá na janela olhando a chuva.  Fui sentar lá com eles também - gosto de fazer isso. Estava claro ainda ao entardecer. Agora somos oito na família: o gato, o carcará, a coruja, o galo, os 3 passarinhos e eu. Sentados, os três na janela, aproveitávamos a chuva e o anoitecer. Estava esfriando bastante, ficando nublado. Fui vestir o meu moletom de capote e fechar as janelas laterais, coisa que eu nunca fazia, mas a chuva estava entrando, respingando tudo pra dentro da casa, molhando - então foi preciso fechá-las. A coruja já estava lá no oco da árvore, dormindo, o carcará no galho dele e, no chão, um rolo de gato e galo, pois foram se deitar, juntos. Tudo certo eu fui ouvir um pouco de rádio, enrolada no edredom. O verão em São Paulo é época de chuvas fortes, mas não e frio e estava esfriando bastante. Saí com chuva da costa da Califórnia, cheguei aqui com chuva e só tem chovido.
Entrei em contato com os rapazes do disco voador e eles já estavam recolhidos também. Eu queria falar com o pessoal lá em casa, mas não deu, pois quem faz a conexão são eles. Então fiquei olhando a foto deles, pensando no Etelzinho. O nome dele é Etel e ele bem que podia vir morar aqui: a minha mãe, o Etelzinho e meu pai. Só então me dei conta que eu não sabia no nome do meu pai... Que falta! Também, eu nem conhecia eles... Os rapazes do disco que me disseram o nome dos meninos, meus irmãos, e o da minha mãe eu já sabia, não sei explicar porque.
Uma luz forte passou pela janela e ouvi vozes. Uma nave espacial menor veio trazer material para o disco voador e levar as pesquisas para Capella. Eles sempre fazem isso e aproveitam as noites assim, chuvosas ou sem lua, para navegar por aí. As pessoas deitam mais cedo nessas noites assim. Depois, se elas veem alguma coisa e contam pra alguém, ninguém acredita mesmo que viram um disco voador, porque quem vê essas coisas é tachado de criatura doida. Por isso as pessoas se calam quando presenciam algo assim.
Meu pai me falou que as coisas estão muito sérias entre ETs e humanos, e nós estamos em desvantagem, porque os humanos se aliaram aos nossos inimigos e eles colocaram na mão dos homens tecnologia capaz de causar um desastre nuclear, que atingirá todos os mais próximos e causará danos no universo, abalando todos os sistemas. O homem é um ser ambicioso, ele enche os olhos com qualquer coisa, sem atinar para o perigo, não mede as consequências. Sua sede de poder é tanta que ele nem nota que, em vez de progredir, está se destruindo. Agora ele está brincando com o clima, fazendo nuvens que gritam, colorindo o céu, provocando tornados... 
Está se sentindo um deus, controlando e manipulando as forças da natureza. É isso mesmo que os que fingem ser seus amigos (e lhes dá esses conhecimentos) querem: que você destruam tudo. E nós, mais uma vez, estamos aqui para salvar os que estão fora disso. 
  
E eles estão seguros, dando risada, enquanto vocês se destroem. E o homem, que se diz o inteligente do planeta, nem nota que está sendo manipulado. Ele se acha o dono absoluto da Terra... Não sabem que só moram aqui, que isso aqui não lhes pertence.

Desliguei o rádio e fui dormir.

Beijos. 

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