Oi. Não fomos hoje. O Naldo tinha prova, ele ligou hoje cedo no meu celular para me avisar e transferimos para amanhã. Então hoje eu li bastante e naveguei um bocado na internet, depois de cuidar da minha família animal.
Já no
final da tarde eu fui até a conveniência buscar o meu jantar, mas voltei de
mãos vazias. “Acabou o cheesburger de
soja, só tem o de carne bovina ou de frango”, disse o rapaz que está
acostumado a me atender no caixa. Agradeci, dei as costas e fui embora, não
pedi nada. Então hoje, pela segunda vez, eu comi o meu arroz com ervas amargas,
duas horas depois de fazer como minha mãe me ensinou: me alimentei de um pouco
de luz, mesmo com essa energia ambiental comprometida que está disponível por
aqui hoje em dia. É o que tem e, como não sei quando vai chegar de novo meu
hanburger de soja, vou exercitando os ensinamentos da minha gente e me virando
como posso. Talvez amanhã eu passe a buscar minha refeição em outro local, vou
procurar algum lugar que não falhe com seus clientes.
É claro que eu não vou comer carne bovina, nem de porco, nem de
frango. Não vou comer carne nenhuma. Lá em Capella nós já abolimos este hábito
há muito, muito tempo, e não me conformo de vocês ainda acharem normal comer a
carne de um animal que foi criado exclusivamente para o abate, um animal cujo
único propósito é sofrer enquanto vive, para engordar e crescer (entupido de
hormônios, antibióticos e de outras químicas) e depois morrer de maneira cruel,
em grande sofrimento e com medo, pra servir de alimento pra todo mundo. Alguém pode
me explicar como é que isso é considerado a coisa mais normal do mundo? Quase metade
da população do planeta vivendo de forma miserável (como os estudiosos, intelectuais
de vocês escrevem nos artigos que li na internet e nos livros que os rapazes
trazem pra mim: “abaixo da linha da
pobreza”). A outra metade da população do planeta comendo demais, comendo
errado, morrendo pela boca, se empanturrando de animais mortos, como se carne
desse em árvore.
Terráqueos comem bois, porcos, frangos, peixes, cavalos, baleias,
alces, cachorros, búfalos, patos, cabras, perus, insetos e vários outros
animais de caça. Estão de parabéns: a principal fonte de proteína de vocês vem
banhada de adrenalina, de antibióticos, de pesticidas, de hormônios diversos e
de energias negativas. Como vocês acham que é um abatedouro? Como vocês acham
que o animal se sente ao ser encaminhado para a morte? Por acaso vocês não
sabem que este animal já segue em direção ao abate em pânico, em depressão
profunda, liberando todas as substâncias que o corpo libera nessas condições?
Eu imagino a beleza que é esta carne e o quanto ela faz bem para os seus corpos
físicos, os seus corpos sutis e para as suas mentes...
Mas não, as pessoas só veem
aqueles desenhos simpáticos das marcas das embalagens. Estão dominadas tão profundamente
que nem percebem como as coisas funcionam. Elas são influenciadas pelos
desenhos de bichos simpáticos e sorridentes das marcas das indústrias de
alimentos. Todos os bichos sorrindo, dançando, cantando como se fossem
voluntários conscientes e dedicados, como se dissessem “pode me comer à vontade, eu estou aqui à sua disposição, feliz por ser
seu alimento, você é meu senhor absoluto e eu adoro matar a sua fome!”
Então as pessoas vão ao supermercado e encontram esse tipo de coisa estampada nas bandejas de frango e nas embalagens de carne e nem param pra pensar em
nada. Bom, não dá pra ficar com pena de quem passa a vida inteira se
alimentando de algum bicho sem nunca parar e se perguntar de onde aquilo veio,
como chegou ali, como foi feito. Só porque é normal, só porque é assim que se
faz, só porque todo mundo faz assim, então pronto, é assim que todos vão fazer
também e não vão parar pra refletir sobre alguma alternativa. É isso mesmo que os donos de vocês
querem que aconteça, porque após uma vida inteira se alimentando sem parar pra
pensar no que vocês estão comendo e bebendo... No dia em que vocês quiserem parar
para pensar em alguma coisa, vocês não vão ser capazes de formular nem um
pensamento coerente. Não vão chegar à conclusão nenhuma.
A que conclusão pode chegar uma população que come frangos proibidos
de dormir? Os frangos não dormem porque nos mega criadouros não apagam as luzes
– assim os bichos comem mais e engordam mais rápido, se ganha tempo até estarem
ideais para o abate, que também é feito de maneira cruel. Quando as pessoas não
comem frangos, comem carne bovina ou de porco, que também muitas vezes são
criados o tempo todo em cubículos para jamais caminharem – assim a carne fica
mais macia e tenra, mais gorda e “saborosa”. Além disso, os perfumes, cosméticos,
remédios, são frequentemente feitos com substâncias de origem animal e
extraídas com sofrimento.
Os terráqueos agem como se fossem a única espécie importante, digna,
inteligente e com direitos do planeta. Mamíferos, anfíbios, répteis, aves,
peixes, não interessa pra vocês, basta ser fonte de carne, de couro, de
pigmentos, de gorduras, ceras, sedas, fluídos, para que esses animais sejam
submetidos a procedimentos que causam dor. Então todos esses produtos são
vendidos, valorizados, disputados por vocês na forma de perfumes, cosméticos,
lubrificantes, velas, medicamentos, pós, hidratantes, tinturas, álcoois,
hormônios, óleos, proteínas, lãs, fibras, etc. A morte está em todos os
lugares, todos os dias. Mesmo quando certas substâncias são de origem vegetal
ou sintética, ainda tem os testes feitos em animais, testes de vacinas,
remédios, veículos, radiações. Os animais são expostos a tudo, em nome do “desenvolvimento”
de vocês. Até na hora da diversão os animais estão à disposição nos zoológicos,
nos circos subindo escadas, mergulhando em bacias, correndo em círculos,
ficando em pé, carregando gente nos passeios ou divertindo multidões nos
rodeios, nas touradas, nas farras de boi, nas corridas, nas rixas.
Eu já contei aqui que fui trazida para a Terra para servir de fonte de
informações para estudos e pesquisas realizadas por nós sobre o estado do
Planeta e sobre as condições da humanidade. Eu forneço esse tipo de informação
pra Capella também. Vejo, reparo, me informo, leio e emito relatórios
constantes para serem enviados com os relatórios que os rapazes da nave fazem
também. É claro que nas minhas informações eu também registro a existência dos humanos
vegetarianos, dos que se alimentam de produtos orgânicos, dos naturalistas, dos
movimentos ecológicos e dos esforços de organizações que lutam pelos direitos
dos animais, mas até agora as notícias que eu envio ainda são muito negativas,
pois a maioria dos terráqueos ainda não está atenta a nada disso. É muita coisa
pra resolver e muita responsabilidade nas mãos de poucos de vocês, bem do jeito
que os inimigos de vocês gostam: a maioria dormindo, moscando, correndo atrás
de dinheiro e grudada na televisão, sem pensar no que compra, no que usa, no
que come, no que veste. Pouca gente disposta a refletir, a experimentar alguma
mudança. Mesmo sendo uma ET capeliana, feita para ser muito comedida em
relação aos sentimentos, é em noites como esta que a saudade que eu sinto de
Capella e da minha família fica grande. Eu
sinto muita vontade de ir embora, pois eu vejo que há tanto pra fazer e poucos querem começar a se mexer. Eu sei que até a soja que eu como sempre e que eu não consegui
comprar hoje é problemática, pois tem muita soja transgênica rodando por aí e
mesmo a soja que não é transgênica está devorando o cerrado e a Amazônia. Não
vejo a hora do minha árvore de pomander crescer.
Agora chega de escrever porque eu vou pesquisar um pouco sobre os
vegans e sobre o que alguns de vocês já sabem a respeito de alternativas éticas
e alimentação natural, pra poder deixar meus envios e relatórios pra Capella um
pouco menos decepcionantes.
Tchau!



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