Não me canso de olhar a foto da minha família. Pai, mãe e dois
irmãos - um de 14 e um de 5 anos. Já coloquei a foto em um quadro e pendurei na
parede, bem de frente pra mim. Ampliei a foto bem grande, me deito olhando pra
eles antes de dormir e converso com eles. O Canjica fica me olhando. Ele vem
pra junto de mim, fica me olhando falar e quando eu me calo ele dorme.
Sabe o “CD Pirataria Intergaláctica” gravado lá no disco
voador? Então, tem uma versão especial de Misty – eu conheço a música em várias
versões, mas esta que me mandaram é completamente diferente pra mim.
Escuta aí.
Eu gosto muito das big-band
e esta versão está bem country...
Gostei... Bem ao estilo country americano... Bem diferente.... Os outros
arranjos que já ouvi são meio lentos.
O céu aqui está azul, lindo, profundo. As nuvens brancas, o
sol imenso, forte, quente... Isso é a Califórnia... É meio dia agora.
Um dos livros que me trouxeram fala de códigos. Existem
alguns livros aqui na Terra que só os extraterrestres que os escreveram é que
podem explicar e traduzir. Os humanos não conseguem e acabam fazendo ideias
erradas sobre tais livros, não entendem por que estão escritos em código – eles
dizem – mas não é código, é a escrita normal deles. Quem sabia o que queria
dizer não passou adiante e hoje ninguém mais sabe interpretar isso. É assim que
se perdem os ensinamentos... Aliás, se perdeu tudo... Se os humanos tivessem
vivido segundo o que lhes foi deixado, não adoeceriam porque ali estavam todas
as nossas experiências para conservar o corpo sadio, para nunca adoecer... Mas
perderam tudo, o que é natural do ser humano.
Eu sou naturalista, não como carne de animais – o meu cheeseburger
é de soja, e é uma delícia. A carne faz um mal terrível e os homens não foram
feitos para o consumo da carne. Volto a avisar, não estou vendendo produto
algum, fazendo propaganda de nada, ditando regras... Estou apenas conversando
com vocês, não estou contra ninguém. Estou contando minhas experiências de ET
no planeta Terra.
Os alimentos enlatados que eu uso e os sucos prontos que eu
tomo não têm química. Os biscoitos, bolachas, só caseiros. Pão e torradas são
integrais. Macarrão, só uso natural. Os queijos são bancos, tipo ricota ou de
coalho, que eu tempero na salada na hora de comer – com ervas. Mesmo quando
criança eu já comia assim, eles me orientavam, me proviam das coisas e às vezes
me mandavam provar as comidas da Terra pra experimentar... Eu como quase tudo
cru. Cozido, só uma coisa ou outra - e no vapor.
Faço exercícios – pedalo a bicicleta, faço caminhadas, corro.
Consumo bastante líquidos - sucos, leite, água de coco, água, leite fermentado
- nos intervalos das refeições. Me cuido...
Não posso engordar, tenho eu ser magrela. Já viram ET gordo?
Então... Não existe ET gordo, porque comemos para viver e não vimemos para
comer.
Como já falei, tenho uma casa agora. Adoro sentar na janela e ficar à
toa olhando o nada.
O pessoal do disco voador me trouxe um binóculo pra olhar o céu, lá em
casa, e o meu planeta. Trouxeram também uma foto da minha família e o jazz que
eu queria.
A música veio em um CD gravado por eles – pirataria intergaláctica!
Tem 20 músicas, incluindo as que eu já toquei pra vocês.
Eles me trouxeram também um telescópio, mapas do céu e um livro de
astronomia... Vou ter muito com o que me divertir. Estou ficando uma ET muito
humana, adquiri hábitos e necessidades humanas, porque vivo aqui desde bebê,
então o meu organismo já se adaptou ao planeta, sou igual a vocês agora, só que com poderes. Aliás, vocês também têm, só que não desenvolveram isso. Sabem
por que? Porque perderam os ensinamentos onde estava todo o processo de
evolução de vocês, e não o seguiram... Resultado? Esqueceram como se faz,
perderam. É por isso que as crianças que estão nascendo aqui agora já estão
modificadas, estão vindo melhoradas, trazem o sensorial mais desenvolvido...
Vamos voltar à era dos super-homens, super heróis – por enquanto, pra vocês,
são só histórias... Vocês perderam tudo isso, ficou esquecido.
O ambiente aqui inibe esses sensores que nos fazem ter os super
sentidos, por isso a necessidade de exercícios para ativá-los. Só que tudo se
perdeu, ninguém se importou em fazer nada e isso ficou atrofiado, oculto. Lá com os meus já é diferente, o nosso mundo lá nos desperta todo o
potencial, a força.
Agora eu fiquei sabendo que eu sou mesmo mais humana do que ET e o meu
organismo não irá mais se adaptar ao ambiente de lá. Só vou conseguir viver lá
com roupas especiais, porque me criei fora do ambiente. Já a minha mãe é mais
ET do que humana, vive melhor lá do que aqui na Terra.
Pra viver aqui eles têm que usar roupas especiais e nós que vivemos
aqui temos que usar roupas especiais para viver lá. Os organismos se
acostumaram aos ambientes onde viveram e cresceram. As crianças que foram
daqui, ainda bebês e cresceram lá, vivem bem e estão adaptadas. O mesmo acontece
com os bebês que vêm de lá: vivem aqui como humanos, apesar de serem ETs. As
crianças que foram daqui pra lá são todas filhos de pais de lá e nós que viemos
de lá somos filhos de terráqueos que vivem lá agora, foram levados pra lá
porque são mais ETs do que humanos. As mães de lá já não estavam mais tendo
filhos, por isso vieram buscar mulheres daqui para serem fecundadas por homens
de lá, repovoar o planeta. Nós viemos pra cá pra isso também, pra servirmos de
base para os estudos deles.
Mas deixa a biologia pra lá e vamos conversar sobre outras coisas. Agora
chegou a minha vez de perguntar a vocês: por que vocês não acreditam no que os iguais a vocês dizem sobre os
ETs?.. Vocês acham que ETs não existem? Eles existem, sim. Ou melhor, nós
existimos – viu como eu já falo como uma terráquea? Não me incluo mais... Pois
é, os ETs existem, sim, e estão bem aqui junto de vocês, foram criados aqui e
estão em todos os lugares. Somos fontes de estudos e adaptações aqui na Terra.
Somos híbridos, como todos vocês foram no início, até desenvolverem a sua
própria raça com os nascidos aqui – mas o DNA original foi nosso. Nós somos uma
nova experiência na qual alguns erros foram corrigidos e outras adaptações
feitas e incluídas. Vocês maltratam muito o corpo de vocês, ao invés de
conservá-lo, vocês o destroem e adoecem o tempo todo por causa disso – doenças degenerativas.
O corpo de vocês foi desenvolvido de maneira que se adaptasse aqui na Terra...
Mas vocês os destroem com seus vícios e exageros – não sou ninguém querendo
fazer campanha do verde nem de salve o planeta, não sou ecologista nem
simpatizante de causas, nada disso. Sou uma amiga que não compreende como
vocês, com um lugar tão lindo e privilegiado como a Terra, podem degradá-la
assim.
Acho que o que falta para vocês é verem como são os outros mundos que
tem por aí, presenciar a luta que é para sobreviver em lugares assim, e vocês
com um paraíso desses, o desperdiçam. Tem mundos parecidos com o de vocês, mas
não iguais... Este é o planeta mais cobiçado do universo, pela variedade de
coisas e pela natureza esplendorosa... Pena que a maioria da população não
reconheça isso. Se deteriorou em vocês o amor, a fé, a esperança. O egoísmo
entre vocês é enorme. Cada um só pensa em si, só quer para si... Quando
deixaram de dividir as coisas entre vocês, o mundo virou isso que é hoje...
Puro egoísmo.
O nosso mundo lá é bem parecido com o de vocês. Agora, aqui (como eu
já disse) vocês ficaram um tipo mais bonito devido ao ambiente gentil. A
geração começou a mudar, as pessoas começaram a ficar mais aprimoradas na aparência
com os cruzamentos, pena que isso não se deu no interior também. Não evoluíram
nos seus potenciais. Se vocês, bonitos do jeito que são, fizessem o que nós
podemos fazer.... Seriam deuses. A casta do universo. E eram para ser, porque
descendem de deuses como nós, de raças puríssimas, só que se misturaram com
outras raças e acabaram desvirtuando as gerações que foram ficando cada vez
mais fracas, perdendo todo o potencial, se afastando do real.
Uma vez ou outra nasce o que vocês chamam de gênio. Vão cruzando,
cruzando, até que sai um quase puro da raça que iniciou roda a geração do planeta.
Alguns têm os potenciais bem desenvolvidos, mas vivem escondidos, não
mostram o que podem fazer porque têm medo de parar em um laboratório de pesquisas,
servindo de cobaia (como têm alguns por aí sendo estudados). Se eles nos
descobrirem, souberem onde estamos, coitados de nós... Por isso nós nos
mantemos ocultos observando, estudando vocês, para saber o que deu errado e
poder arrumar.
As crianças índigo e as crianças cristal estão chegando para arrumar
essa bagunça e fazer as coisas do jeito que elas deveriam ser – e têm que ser.
Da minha
janela observava uma tempestade de raios que encheu a clara tarde de verão. De
repente o céu se transformou e mais trovões e relâmpagos começaram a cair sobre
a Terra.
Quando acontecem
essas tempestades de raio secas, tem sempre uma nave por perto. E não são das
nossas, são dos inimigos de vocês. Nós somos da paz, estamos aqui para ajuda-los.
Os rapazes do disco voador disseram que estes outros de quem estou
falando têm vindo bastante por aqui, provocar catástrofes. Eles querem destruir
a humanidade para se apoderar do planeta. A galáxia está em guerra e eles
precisam de um novo mundo para viver. Exterminando vocês, eles virão ocupar a
Terra. Inclusive, eles também nos procuram, pois sabem que queremos ajudar os
terráqueos, então nos caçam. Vivemos entre vocês e vocês nem sabem... Bom, eles sabem. Como somos parecidos
com vocês e passamos despercebidos, fica difícil eles saberem quem é quem. É
por isso que não podemos nos mostrar, não devemos nos expor. Temos poderes,
somos rápidos e fortes, por isso eles nos temem e querem acabar conosco, nos
pegar de surpresa. Querem nos eliminar, pois assim será mais fácil se apossar
de tudo aqui. Só que eles não sabem que já somos muitos aqui na Terra - eles
acham que são só alguns que vieram preparar tudo aqui para a vinda dos outros e
evitar a chegada deles.
Lá no espaço,
longe dos olhos de vocês, está pegando fogo! Outras civilizações existem –
acreditem nisso – e algumas delas querem destruir a Terra. Eu gosto muito de
conversar com os rapazes porque fico sabendo das coisas que acontecem lá por
cima. Eles me informam de tudo.
Mas é claro que tem muita gente
que também já sabe de tudo isso que está acontecendo no universo. Gente daqui
(terráqueos) e gente de fora, sejam invasores ou aliados. Há inúmeras maneiras
de saber e de perceber (sentir) a verdade sobre as origens de tudo. Este
próprio tempo é um tempo de abertura, inclusive. Antes, era muito mais difícil
saber das coisas. Mesmo assim a maioria das pessoas ainda não sabe de coisa
nenhuma – deve ser porque não querem saber, não se interessam. Tanto é que
aqueles que sabem de tudo nem fazem mais questão de esconder... Filmes, livros
e músicas trazem muitas informações sérias e verdadeiras, com a etiqueta de
ficção ou fantasia. Tem muita pista boa e dica quente dando sopa por aí.
06 - O Dia Em Que Faremos Contato by Lenine on Grooveshark
O disco vai ficar sempre aqui em
cima da casa agora. Ele é um laboratório de pesquisas, que fica passando
informações em tempo real para Capella. Estão instruídos para missão de
salvamento, por isso não se afastam de mim. Enquanto me guardam (por ordens de
meu pai), fazem pesquisas e dão boletins diários sobre tudo o que acontece aqui
na Terra.
Tem muitas outras naves menores
nossas por aí, sobrevoando tudo, colhendo informações e acontecimentos no mundo
todo, e enviando para as naves como a que está estacionada sobre a minha casa.
Só que esta nave é minha, presente do meu pai e, como está estacionada, montaram
um laboratório de pesquisas e uma central de informações. Agora eu já sei que
este é o meu veículo e que os rapazes são a minha equipe. Eles me observam e
estudam, através de mim, a vida na Terra, o ambiente e as pessoas. Desde
criança sou monitorada, eram aquelas pessoas que eu via no pé da minha cama e
tinha medo porque não sabia quem eram e nem o que era aquilo que eu via. Só aos
14 anos me contaram tudo o que já contei pra vocês e depois, já quase agora, eu
soube do resto e dos detalhes.
Quando eu comecei a receber
ordens de vir pra cá, ir pra lá - e eu ia - eu nunca via ninguém, só ouvia uma
voz. Depois daquela confusão lá do meu professor, quando eu me mandei daquele
lugar e fui parar novamente na estrada deserta, é que a nave veio me pegar.
Confesso que fiquei assustada, emocionada, nervosa e morrendo de medo quando vi
aquele “discão” voador sobre a minha cabeça, me seguindo, e recebi ordens de
parar e subir. Eu nunca tinha visto um disco voador pessoalmente, só em fotos
de revista – péssimas fotos, nada a ver. As naves são lindas! Lá dentro, me
senti em casa.
Voltando à tarde em que observei
a tempestade da minha janela... Meu pessoal, dentro do disco, se afastou. Foram lá na tempestade ver o que estava
acontecendo e aproveitar para carregar a nave com a energia eletrificada dos
raios e catar os coriscos que caíam sobre a terra - uma espécie de esporte
nosso. Lá onde caía a tempestade de raios, escureceu. O vento soprava forte e
as nuvens cumulus ninbus rolavam
rápido pelo céu. Gosto de ver essas tempestades passarem... Troveja, faíscas
cortam o céu riscando caminhos sinuosos como teias de aranha e somem. Não
choveu. Era uma tempestade seca e não derramou uma gota d´água.
O disco voador voltou trazendo
uma novidade pra mim: um galo todo branco. Aliás, frangote ainda. “É o Canjica”, eles disseram. Eles ganharam
o galo em um jogo de cartas, no bar. Foram jantar, convidaram eles para um
carteado, eles aceitaram - e ganharam, lógico. O prêmio era o Canjica e trouxeram
ele pra mim. Ele cantou todo atrapalhado, desafinado, porque ele é novo no
canto ainda. Está nos primeiros ensaios de cantar como galo.
Só me faltava essa, um galo na minha
vida. Pra onde eu vou, ele vai atrás de mim. E agora eu tenho um colega de
janela.
O espaço aqui onde estou morando é
vazio, não tem nada, móvel nenhum. Tem algumas coisas em espaços improvisados: são os “bota coisas em cima”. Assim são os meus
móveis. Agora tem outro desses “bota coisas
em cima” com TV, som, DVD. É baixinho também, só a parte da TV é mais alta
um pouco com 90 cm de altura – a coluna central. Tudo está colocado aos
redores, só esse com a TV que ficou bem no meio. O local é
pequeno e a parte que eu chamo de – a minha cozinha – fica do lado direito da
janela da frente.
A porta de entrada ao lado que dá pra escada, fica
permanentemente fechada – entro e saio pela janela sempre, não uso porta. Não,
não sou vampiro, não. Os vampiros são uma raça, inclusive, que nós caçamos...
Eles foram banidos da face da Terra, deles resta algum DNA por aí, mas estão
muito bem escondidos, disfarçados, porque todo mundo os caça, então se disfarçam
de gente comum. Mas é fácil conhece-los: só andam de preto, óculos escuros e
são muito pálidos – porém lindos.
Olha, tem
muita coisa que eu queria contar pra vocês, gostaria de revelar a vocês, mas
vão me tirar do ar se eu fizer isso, eu sei... As pessoas com quem eu me comunico
sabem como isso é perigoso.
Agora... Eu
não sei para quê manter tanto segredo... São tantas coisas deixadas aqui... As
pirâmides – como poderiam, naquela época em que quase nenhuma tecnologia
existia, construírem colossos daqueles? Porque havia tecnologia ou algum método
muito mais avançado que nos dias de hoje.
Nós somos da
Terra, viemos, voltamos, tornamos a vir. Vocês são gente nossa que ficaram
aqui, trouxeram tudo, fizeram mapas pra que os que ficaram se orientassem. As
invenções que facilitam a vida...
Os nascidos na
Terra (a raça que se originou das misturas feitas) são vocês, os humanos. Os
nascidos aqui são esses que estão em guerra, matando, roubando... Nós não
fazemos nada disso. Esse é o homem da Terra.
Nós tentamos
melhorar a espécie... E foi em vão... Saiu do controle, virou praga, se misturou
com outras raças que aqui desceram e surgiram essas aberrações... A maldade de proliferou, a vida não vale mais
nada. Esse não é o homem que criamos, eles eram bons, puros, simples, dignos...
Hoje em dia, não são mais.
Não tem nada
de religião, de lavagem cerebral, aqui é a consciência.... E os que têm
consciência são os diferenciados.
O problema é
que aqui na Terra, a maioria vive alienada, não prestam atenção em nada, não
analisam, não alcançam as mensagens, acham que isso tudo é apenas ficção...
Coisa de filme.
Oi! Estou morando em um sótão agora. Coloquei um frigobar,
enchi com água de coco, suco de uva, água, caixas de leite com fibras, com
frutas e só leite mesmo. Tem ainda sucos variados e leite fermentado.
Meu organismo se adaptou bem à Terra e, depois de todos
estes anos consumindo coisas daqui, me acostumei e sinto falta primeiramente
destas coisas que coloquei no frigobar – líquidos.
Eu limpei o sótão deixando só o espaço vazio em cima. Lá
embaixo não presta nada, caiu tudo. Coloquei dois colchonetes dentro de um saco
de pano no chão sobre um cobertor grosso, um abajur de pé. Aí é o meu quarto.
Coloquei um forninho para aquecer os meus sanduíches, que é um 3 em 1: forno, grill, cafeteira - eu adoro café. É tudo
elétrico.
Eu compro sempre dois cheeseburgers
– um com fritas, salada e uma maçã de sobremesa – esse é o meu jantar. O outro
é pra madrugada – só o sanduíche, sem salada, sem batatas, sem maçã... Fico
acordada até a madrugada, e como outro. Às vezes como duas tortinhas de banana
também ou mesmo de maçã – maçã, prefiro a fruta, mas às vezes trago tortas - gosto
muito de comer a maçã fruta.
A sacola tiracolo está atrás da porta com os documentos e
algum dinheiro que eles me dão para comprar o que comer. Estou aqui sozinha,
afastada do mundo. O meu iPod é a minha única companhia, além dos meus livros,
é claro.
Falei para eles que não queria mais morar com ninguém, que
agora eu queria morar só – mas tenho que ir para o meio das pessoas para eles
poderem estuda-las. Eles estudam as pessoas através de mim. Sou um computador
vivo e passo a eles todas as informações sobre tudo na Terra. A maior parte do
tempo fico como estou agora, sentada na janela com as pernas pra fora balançando-as,
olhando aqui de cima, ouvindo no meu iPod essas músicas terrestres que gosto.
Como eu já disse, sou sensivelmente musical. O som me afeta muito, me toca.
Agora vou precisar de todo o meu inglês porque estou no sul
de um lugar lindo, a Califórnia. Acho que é o sul, do sul, do sul. É longe,
viu... Lugar calmo, quieto, nem sei bem onde fica isso, mas é afastado de tudo.
Tem um bosque lindo próximo daqui – aqui atrás. Vim embora, porque não podia me
encontrar com o pessoal lá e eles iam me procurar porque coisas como as que eu
fiz com eles, só em truques de cinema... Só acontecem em estúdios de filmagem.
Agora a música, meus livros e os sanduíches serão minhas
companhias constantes. Neste momento eu estou lendo “O Diário de Anne Frank” e já está na espera “As Brumas de Avalon”, composto de 4 volumes.
Eu pedi a eles para ir embora para a casa da minha família
lá em Capella, mas eles disseram que eu devo esperar, pois ainda não acabei
aqui. Trouxeram vários livros que eu já arrumei nas duas prateleiras que deixaram
aí também. Recebi deles mais duas músicas – agora já tenho um bocado, mas eu
tenho minhas cinco preferidas.
O céu está lindo aqui hoje... Eu achei essa música meio
triste, mas é linda... Gostei muito. É... Os caras da nave já sabem o meu gosto
musical. Eu gosto muito de jazz também e tenho procurado um que ouvi um dia lá
com os caras da faculdade, já pedi pra o pessoal do disco voador procurar pra
mim. Eles me trouxeram uma harmônica – gosto do som da harmônica no blues – e eles
me trouxeram a harmônica e umas partituras pra tocar. Tudo isso pra matar o meu
tempo aqui.
Fiquei muito satisfeita quando achei a caixa de manhã ao
acordar. Abri e tinha os livros, a harmônica, as partituras e as músicas. Foi
ótimo.
Arrumei uma bicicleta velha que encontrei aqui na casa, lá
embaixo e ou pedalando nela até a conveniência mais próxima aqui na estrada
comprar meus sanduíches e mais alguma coisa que eu queira.
Tenho vizinhos mais lá na frente, vi os dois quando passei
por lá. Um casal de idosos. Ela na cadeira de rodas e ele com uma bengala, se
apoiando. Me cumprimentaram e ficaram me olhando interessados. Vai ver se
sentem só, isolados aqui sem poderem se locomover direito. Disseram:
- Morning!...
E eu respondi: “Morning!..”.
Na volta deixei um jornal pra ele e revistas pra ela. Ficaram satisfeitos. Agradeceram
muito e me chamaram para ir lá conversar, tomar um chá. Prometi ir... Tem mais
uma pessoa lá que faz as coisas pra eles, uma senhora nova ainda, são três lá
na casa. Então eles não estão sozinhos, têm companhia, não precisam de ajuda.
Depois do passeio voltei à minha solidão, ao meu ponto de
observação, aqui de cima, de onde também gosto de observar o céu.
A conveniência fica longe daqui, é uma boa pedalada... Os
meus vizinhos têm uma caminhonete, a senhora lá deve dirigir.
Depois dessas confusões e dessas vivências com humanos que
não deram certo, quero viver assim: só... É melhor. Vou onde eles mandarem –
porque ir daqui até a Europa ou África ou Brasil... Pra mim não é problema, num
estalar de dedos estou lá...
Não sei se vou me acostumar assim, afastada de tudo, mas não
quero mais morar com ninguém, não... Fico melhor assim, sozinha.
Porque me escondo? Vocês não sabem o que os humanos acham
dos ETs, não?... Não posso sair por aí, me mostrando. Já crianças e estudantes
é outra coisa, não vão me fazer mal nenhum, por isso convivi com eles e, mesmo
assim, não deu certo...
Agora, viver com adultos é impossível. Viu o que aconteceu
com os caras da faculdade? Não posso ficar me expondo. Ninguém pode me
descobrir senão viro cobaia e vou parar em um laboratório sendo morta e cortada
para me estudarem. Entenderam?
Desci da nave em qualquer lugar.
Fiquei no meio da rua, não tinha pra onde ir, mas não podia ir com eles. Tinha
que esperara-los voltar da missão a que estavam sendo solicitados sobre o mar.
Era noite e fiquei olhando as
mulheres que vivem na noite. O mundo da noite na Terra é movimentado e
estranho. Eu não tinha destino certo agora, então resolvi matar meu tempo por
ali, observando-as.
Tem um tipo de mulher que eu
ainda não conhecia, que são homens no corpo e mulheres na alma. Mas não quero
falar nesse assunto, tenho medo de falar errado e me comprometer. Não estou
esclarecida o suficiente pra falar sobre isso. Mencionei por causa do que vi à
noite.
Eu não sabia o que o pessoal do
disco voador tinha ido fazer, só sabia que era no mar e imaginei que estavam
atendendo ao chamado de alguma base subaquática. Temos bases submersas nos oceanos
e outras subterrâneas nas montanhas, assim como bases de interação nas matas.
Eu sou um ponto de interação pra eles.
Somos pessoas das quais ninguém
desconfia, porque vivemos isoladas só indo para o mundo quando há alguma
pesquisa para ser feita. Ninguém sabe onde estamos, mas muitos sabem da nossa
existência aqui e acreditam nisso – poucos. Já outros, não acreditam – a maioria.
Isso não faz diferença pra nós, vamos sempre a lugares diferentes e sumimos dos
lugares onde ficamos em evidência, como essa vez que aconteceu comigo lá na faculdade.
Não poderia mais voltar lá. Eu tinha que arrumar outro lugar pra ficar. Cometi
uma falta grave, devia ter feito todos adormecerem e não lembrarem de nada ao
acordar, mas eles me viram chegando e o tempo era urgente, não havia mais
espaço para nada, só para ação.
Deixei a noite e fui me sentar,
no porto, olhando o mar. Sentia necessidade de organizar meus pensamentos e
decidir o que fazer da vida enquanto esperava o disco voador, que estava sobre
o mar, voltar. Eles mergulharam.
Oi! Foi um tempo confuso este que eu passei entre
os humanos. Difícil compreendê-los, mesmo levando tudo na brincadeira e aceitando
sem reagir as suas graças. Senti depois deste episódio que era difícil pra mim
não ter atitudes e reações assim com eles. E eu não queria machucar ninguém.
Eles não eram páreo pra mim, não podiam se defender. E eu ia acabar machucando
alguém sem querer.
Resolvi dar um tempo na minha convivência com eles.
Fui criança de orfanato, tive uma infância péssima.
Fui adolescente patricinha lá com o João e a Glória – foi ótimo. Eu era tratada
como filha. O pai deles vivia encantado com a minha inteligência e a mãe com a
minha habilidade pra fazer tudo e qualquer coisa.
Me apresentavam como filha
deles para as visitas e eu preparei muitos e deliciosos jantares para nós – a família
foi uma família mesmo. Uma juventude e tanto tive com eles, apesar do pouco
tempo – um ano. Por fim, a mocidade livre e tumultuada da faculdade. Eles
pegavam pesado nas brincadeiras horrorosas que tinham. Eu vivia sobressaltada e
fazia de tudo para não sair do sério. Eu era o Cristo, só me chamavam ET. “ET, vem cá...”, “ET, olha aqui...”. Eu evitava e em alguns momentos, sozinha,
escondida deles, ficava me acalmando para não estourar, não reagir. Foi um
tempo chato, esse. Começou legal, mas depois já não era só a minha turma, eram
todos na faculdade. Todos já me conheciam porque eles espalharam na
universidade inteira que eu era uma ET. Tinha os que tiravam graça comigo quando
eu passava, fazendo piadinhas. Tinha os que me rodeavam e tiravam sarro me
pedindo pra fazer coisas. Outros só passavam e me olhavam. Eu não tinha mais um
minuto de sossego, então eu me escondia, sumia e quando eu voltava começavam: “Foi pra Marte hoje? Como está Saturno?”
ou “Encontrou Zeus lá no Olimpo?”. Só
besteiras. Comecei a me chatear, ficar intolerante, mas como eram brincadeiras,
eu fui aguentando, até esse dia em que vi a covardia dos seis contra um. Eles
iam detonar o professor e ninguém ia ficar sabendo depois quem tinha feito
aquilo.
Com essa minha reação, então senti que não ia mais
poder ficar ali, os caras iam revidar quando me encontrassem e não ia dar certo,
porque eu não ia aceitar. Não machuquei ninguém naquele dia, só tirei eles de
ação. Só que não foi uma atitude normal, ninguém aqui na Terra faz isso. Chamei
a atenção sobre mim e quando aquilo se espalhasse eu seria malhada como um Judas
porque agora eles já sabiam que eu não era mesmo humana.
Saí dali na mesma hora e outra vez estava na
estrada deserta, sozinha, bolsa a tiracolo no ombro andando ao léu pela noite.
O disco voador veio me pegar.
Outras Dimensões (A Nave Vai) (2005 Digital Remaster) by 14 Bis on Grooveshark
Sentei olhando lá fora as
estrelas passando pela oclusa – janela – calada, pensando no que eu ia fazer.
Queria ir pra Capella, mas não podia. Na realidade Capella é o nosso sol.
Habitamos um pequeno planeta que orbita em torno dela. E como fui criada aqui,
não me adapto lá. Então o jeito é ficar por aqui mesmo. Mas eu adoro a Terra.
Como já disse, a minha aparência é muito boa.
Melhorei bastante, na vivência com a turma da faculdade, praticando esporte,
nadando. Fui virando gente mesmo. Fiquei na faculdade com essa turma até o dia
em que eles encrencaram com o professor.
Aliás, ser professor aqui na terra não é fácil,
não... Os alunos não querem estudar, ficam batendo papo, o professor fala e
eles não estão nem aí... É como se não houvesse ninguém falando com eles. O
pior é o que os pais pensam que seus filhos estão estudando... É por isso que a
maioria dos alunos de hoje não sabem nada. Presenciei isso quando frequentei a
escola com os jovens João e Glória e, anos depois, na faculdade, percebi que as
coisas não mudam muito, não. É esta a razão dos maus profissionais de hoje, não
aprendem nada e muitos compram o diploma.
Então, voltando ao episódio, alguns alunos encrencaram
com o professor quando este lhes chamou a atenção. Como estavam fazendo barulho
e atrapalhando a aula, o professor não gostou e mandou que eles se retirassem
da sala. Eu fiquei, pois não estava no meio da confusão que eles aprontaram e
os caras acharam ruim comigo porque eu não fui com eles. Saíram fazendo sinais
pra mim... Não me importei.
Depois da aula, o professor foi para o
estacionamento pegar o seu carro os tais alunos estavam lá esperando por ele.
Os seis. De longe, vi quatro deles atacando o professor.
Corri em sua direção,
cheguei lá imediatamente, “do nada” e levantei a mão na direção dos caras, que
ficaram suspensos no ar, imobilizados. O professor estava quase em estado de
choque, boquiaberto, olhando pra mim. Eu disse pra ele: “Vai.. Saia daqui...”. Ele entrou no carro e saiu à toda do
estacionamento. Os outros dois que não estavam imobilizados ficaram sem ação,
olhando pra mim também, sem entender, talvez processando a cena diante deles.
Eu finalmente desci os quatro, abaixando meu braço e desapareci. Os seis
estavam estarrecidos. Ninguém mais viu aquilo, estávamos sozinhos no
estacionamento.
Naquele momento eu me lembro de ter pensado: “agora eles acreditam no que eu sempre disse,
que eu sou uma ET... Tenho certeza que agora acreditam.” Tive que ir
embora, sair da república e da faculdade. Nunca mais voltei lá. Soube que o
professor pediu transferência e que aqueles seis covardes trancaram a
matrícula.
Eu gostava da aula, gostava da república, dos meus
amigos, mas....
Lembro-me do primeiro dia de aula. Esse mesmo
professor, ao ler a lista de frequência que cada um assina após a aula, olhou
pra turma perguntando “Quem é Etnéia?”.
Eu levantei a mão e ele me perguntou de onde eu tinha vindo. Provavelmente ele
apenas queria saber de qual outra faculdade eu tinha me transferido, mas um dos
meus amigos logo respondeu: “Ela é
exilada de Capella, é uma ET...”. A classe toda caiu na risada, até o
professor esboçou um sorriso com a reação da turma... Outro amigo meu
completou: “Ela é a Etnóia... A noiada...
Nóia total!” Outra risada da turma. Alguém, que não era da minha turma,
perguntou: “Onde você estacionou o disco
voador? No estacionamento?...” Mais risadas... Eu, quieta, sorrindo, só
pensava que mal eles sabiam da verdade... Eu os achava uns idiotas. Neste
primeiro dia, mais tarde, na lanchonete, o professor me ofereceu um café e me
perguntou, sorrindo, por que eles faziam aquelas brincadeiras todas comigo. Eu
lhe respondi que eram meus amigos e que a verdade é que eu era, realmente, de
outro planeta, mas que ninguém acreditava.
Neste dia do episódio de agressão, quando interferi
usando minhas capacidades, tanto os seis alunos quanto o professor (que sorriu
com eles no primeiro dia de aula) acabaram descobrindo a verdade, na base do
susto. Comprovaram, os sete, que eu estava falando a verdade, apesar de não
terem acreditado.
Meus 15 anos se transformaram em 21 – idade terrena. Agora
era outra caminhada, outra vida. Recebi ordens para seguir em frente. Saí na
madrugada, a caminho de novas experiências. Dei sumiço na maleta, levei só a bolsa.
No meu iPod tocava isto:
Como sempre, eu ia sem saber para onde. Andava ao léu,
ouvindo a música, cantando junto. Afinal, esse é meu destino aqui na Terra, ir
para onde mandam. Não tenho lugar fixo, sou andarilha. A madrugada estava fria
e eu usava um casaco com capuz e mantinha as mãos nos bolsos. Sozinha pela rua
praticamente deserta, eu seguia caminhando e aguardando alguma ordem ou sinal
de que eu deveria parar.
Eu nunca sabia o destino, mas acertava direitinho o caminho,
mesmo sem saber. Fui instruída a ir para o metrô e lá conheci uma turma. Eram
animados, conversadores.
O metrô ainda estava fechado, pois eram aproximadamente
quatro horas da manhã quando cheguei. Eu os vi caminhando para algum lugar,
carregando seus skates. Era véspera da Natal, ou melhor, já era dia 25 de
Dezembro.
Eles me viram ali, observando-os e um deles perguntou se eu
estava indo para algum lugar ou se tinha algo pra fazer. Respondi que não ia
fazer nada e então eles me chamaram para juntar-me a eles.
Mais tarde, tomando um refrigerante e conversando melhor,
descobri que moravam em uma república mista de estudantes. Providenciei nova
maleta vazia – busquei dizendo que estava “logo
ali adiante” e fui junto com eles. Arrumaram uma vaga para mim na república
e eu estava novamente estabelecida. Foi com esta turma que eu ganhei o apelido
de “Etnóia, a Noiada”...
Obviamente também não acreditaram que eu sou uma ET - como é
difícil ser uma ET aqui na Terra. Não sei por qual razão eles querem tanto que
eu diga a verdade... Já está claro que ninguém vai acreditar nisto. Acho que é
para verem as reações das pessoas. O meu pessoal vai estabelecer contato e
estão estudando e catalogando reações.
Esse pessoal da Terra não acredita em nada.
Eu estou bem longe da casa do João e da Glória, mas quando
quero vê-los olho na palma da minha mãe esquerda e os vejo. Antes de ir embora
eu clonei um iPod pra mim e deixei o deles lá. Claro que clonei as músicas
também.
O pessoal da Terra não acredita em mim porque não mostro a
eles nada dessas coisas que eu posso fazer. Então, sem revelar as minhas
capacidades, eu pareço uma pessoa comum, normal. Ora, como vão acreditar que
sou uma ET? Não dá mesmo.
O Etnóia pegou... Tiraram muito sarro de mim. Sabe como é
universitário, ainda mais morador de república. Ah!!! Eles riam das minhas
histórias e diziam: “Você é muito doida!”
Gostavam das histórias, mas não acreditavam em nada. Não sei
por que o ser humano é assim. Os humanos veem discos voadores (é assim que vocês
chamam as vimanas), são abduzidos e.... Mesmo assim, ninguém acredita.
Um deles disse o seguinte pra mim, certa vez:
“Ah! Esse negócio de
disco voador, de ET, é papo furado.... Se vocês são tão inteligentes,
adiantados, poderosos, capazes de vir aqui... Por que não se mostram logo? Por
que não descem a nave espacial na frente de todo mundo, dizem o que querem e
pronto? Mas não... Ficam aí ensebando... Por que? Porque é mentira, isso não
existe. Você até que tem cara de ET, nome de ET... Nunca vi ninguém chamado
assim, mas quem prova que você é uma ET mesmo? Nem você prova! Ah, me poupa!”
A risada foi geral.
Com meus novos amigos, enquanto morei na república, aprendi
a andar de skate, de bicicleta, de patins. Gostei muito. Fiquei fã de
sanduíches, de tanto comer com eles em lanchonetes, padarias, carrinhos,
vans... Enfim, onde havia alguém vendendo sanduíches e batatas, lá estávamos.
A vida na Terra, depois do orfanato, ficou bem melhor. A
vida de criança não foi boa pra mim, não. Não foi legal. Ninguém me adotou, iam
lá ao orfanato, olhavam pra mim e me achavam feia, esquisita, uma criança...
Sei lá, estanha. Então fiquei por lá até a hora de ir embora. Não se adota
muito por aqui pela Terra, não. Apenas uma criança ou outra que tem a sorte de
ser adotada. Eu não tive essa sorte. A maioria das crianças dos orfanatos
cresce sofrendo e acaba na rua.
A minha vida com o João e a Glória foi uma boa mostra de
como ser jovem: cinema, pipoca, sair com os amigos ouvir música... Eu gostei
daquele tempo e realmente tenho aprendido um bocado nestes lugares por onde
passo. Morar em uma casa de terráqueos, vivenciar a rotina da família, seus
hábitos, suas comidas. Foi um aprendizado, apesar do pouco tempo. Eu sinto
falta deles e fico imaginando como se sentiram quando encontraram a carta de
despedida que deixei pra eles.
Não posso mais voltar lá... Não somos sentimentais, porém
acho que com todo esse tempo vivendo neste planeta acabei desenvolvendo esses
sentimentos... Ando bem humana, já.
Então, na casa dos meus jovens amigos – um casal
– eu conheci a música que já mostrei para vocês. Eu os conheci numa noite em que andava à toa pela
rua, sem saber para onde ir. Eu estava com 15 anos (da Terra). Encontrei com eles e foi aquela simpatia,
sabe? Eles estavam comendo pipoca e me ofereceram. Eu estava no ponto do ônibus,
fazendo não sei o que, pois na verdade eu não sabia para que lado ir. Como os
meus informantes, de quem recebo ordens do que fazer, me mandaram ficar naquele
local, eu fiquei...
Então os dois chegaram falando, rindo, comendo
pipoca e ouvindo música. O fone de ouvido estava no ombro e eles ouviam o
seguinte:
Young Hearts Run Free by Candi Staton on Grooveshark
Parece que tudo ficou mais bonito ao som daquela música.
Eu olhando pra eles, eles olhando pra mim, eu sorri e eles corresponderam com
sorrisos também.
“Quer?”,
eles perguntaram, mostrando o saco de pipoca. Eu peguei um pouco e experimentei
( nunca havia comido aquilo) e gostei.
Eu estava vestida como eles: jeans azul, tênis,
camiseta e jaqueta jeans sem mangas, azul também e, no ombro, uma sacola.
“Vai pra
onde?”, ela me perguntou.
“Não tenho
pra onde ir. Cheguei hoje na cidade, não conheço nada por aqui”, eu disse...
(Foi só isso que me mandaram dizer).
Ela olhou para o irmão, questionando com o olhar se
ele concordava com o que ela falou naquele instante: “Vamos lá pra casa.”
Ele respondeu: “É,
acho que o pai e a mãe não vão se incomodar...” e ela completou: “Chegamos do
interior, lá da casa da vovó, estávamos de férias...”
Em resposta, eu disse que também era do interior e
que tinha cindo à cidade para morar e estudar.
“Ah, legal...
Vamos sim lá pra casa, depois podemos te ajudar a arrumar um lugar pra ficar. Não
tens mala?”, perguntaram.
Pensei rápido, pega se surpresa “Hi! A Mala!” e providenciei uma: “Está aqui atrás da lixeira...”, eu
disse, indo até lá. Os dois me acompanharam e um deles falou: “Nossa, eu nem tinha visto...”
Lógico que não viu. Num instante eu fiz surgir uma
mala... Eu não sabia para onde estava indo nem como aquela história iria
terminar, mas eles eram bonitos, gentis, a música estava alegre, linda. A noite
estava se iniciando morna, misteriosa. O mundo todo cantava ao meu redor.
O ônibus veio, peguei a mala – vazia, só mesmo de
figuração – subimos e nos sentamos lá atrás, no fundão, os três juntos,
curtindo a música. A cidade, linda, passando pela janela do ônibus. Eu curti
aquela vista da janela, olhando São Paulo com atenção. Enquanto observava a
cidade e escutava a música, senti uma coisa boa acontecendo dentro de mim, no
meu coração provocado pelo ritmo – a música mexe muito comigo, eu sou
extremamente sonora.
Quando acabou a música ficamos conversando sobre “balada”,
eles me perguntando se eu gostava... Anteriormente Instruída para contatos
assim, eu me saí bem.
Chegamos na casa deles e conheci os seus pais. Os
dois eram tão legais quanto os filhos. Bem, os filhos são reflexos dos pais...
Já ouviu dizer isso? Ou “tal pai, tal
filho” ou “filho de peixe, peixinho é”.
Essas coisas da Terra, esses ditados que vocês conhecem.
Enfim, os pais deles eram maravilhosos e agiram
como se já me conhecessem há muito tempo. Jantamos uma comida muito boa feita
pela mãe deles.
Vivi experiência de ser criança terráquea e agora
iria viver a adolescência. Era hora de ser jovem terráquea e isso era outra aventura,
traria novos conhecimentos. Seria bom estar em os meus novos amigos, pois eles
tinham praticamente a minha idade: ele tinha 14 anos e ela 16. Eu estava com 15
anos.
Os pais disseram eu podia ficar lá e assim que
começou o ano letivo fui estudar na mesma escola em que eles já estavam
matriculados. Os documentos necessários apareceram, transferência em tudo. Apresentaram-me
como prima e arrumei vaga. Ficamos na mesma classe, no período noturno.
Sentávamos perto uns dos outros, eu no meio dos
dois.
No primeiro dia que a professora chamou “Etnéia”,
foi risada geral na classe e alguém disse: “Parece
uma ET mesmo!” Algum engraçadinho. Os dois irmãos me olharam, como se estivessem
pedindo desculpas por aquilo. Eu sorri e vi que ambos ficaram aliviados,
suspiraram e, no final, ficou tudo bem.
Naquela mesma primeira semana, na hora da saída da
escola, um carinha lá me perguntou “Como
é em Marte?”
Olhei pra ele e respondi, calmamente: “Não sou de Marte, sou de Capella, próximo às
Plêiades.”
Ele ficou sem graça, me olhando. Eu sorri e fui
embora, ele ficou parado olhando pra mim.
Depois desse dia ele não incomodou mais, mas porque
não voltou mais pra aula... Ele entendeu que era verdade o que eu dizia. E os
outros que gostavam de fazer graça com meu nome e com meu jeito acabaram
virando nossos amigos mas não acreditavam em nada do que eu dizia, levavam na
brincadeira, riam.
Quando estávamos em casa, costumávamos ouvir música
e foi na casa deles que eu ouvi “Judy in disguise”, a música que já postei aqui,
lembram?
Eles me deram um IPod com as músicas que ouvíamos,
para que eu ouvisse no quarto, na hora de dormir. O quarto era bem pequeno
porque não era exatamente um quarto... Arrumaram lá pra mim com uma espécie de
cômodo, com uma cama dobrável (cama de campanha), um abajur de pé e a minha
maleta (vazia) lá no canto. A minha sacola tiracolo eu pendurava atrás da porta
– essa tinha coisas dentro: documentos, certidão... Tudo falso.
De lá do meu quartinho eu podia olhar o céu à noite
pela janela e ver as estrelas, sentindo falta da minha casa... Uma coisa que eu
nem conhecia. Mas sinto falta, sabiam? Estou longe há muito tempo, bem longe...
Anos-luz. Eu vim muito nova para este planeta, na idade da Terra, porém já bastante
acostumada com as coisas de lá. Eu senti e sinto, é natural que sinta falta de
lá. Você não sentiria? Imagine-se em um planeta estranho, onde você não conhece
ninguém, longe dos seus familiares e amigos. Sentiu? É barra...
Fora as crianças lá do orfanato, eu conheci esses
dois jovens irmãos que nunca acreditaram em nada do que eu contei a eles. Nem ao
outros alunos da escola acreditaram que eu sou uma ET. Fiz alguns truques na
escola, entretanto nunca convenci ninguém de nada. Tempo perdido.
Eu fiquei um ano com esta família. No final do ano,
no Natal (dia 24), tive que ir embora e, como sempre, sem saber pra onde. Eles
mandam, eu vou.
As crianças do orfanato aceitavam normalmente tudo
o que eu dizia. Criança acredita em tudo...