domingo, 13 de janeiro de 2013

Traição

Oi,

Quando eu voltei continuei o tratamento no menino. E dois meses depois ele ficou em pé. Se segurava em mim, no Naldo e andávamos com ele. Ele nos passos de robô ainda. Com mais 15 dias, já se levantava sozinho, mas só andava se segurando nas coisas. Mais um mês, andou sozinho, pouco cambaleando, mas andou. Todo dia de manhã ele treinava um pouco, ia empurrando a cadeira de rodas, se segurando nela.
Ninguém sabia de nada. Nem o pai, nem a mãe, professores, colegas, ninguém. Só eu e o Naldo sabíamos do tratamento que estávamos fazendo.
Hoje fiquei sabendo que o médico ficou muito admirado com o Rômulo. Examinou ele todo e disse que ela não está mais como estava antes. É como se nunca tivesse tido nada. Fez todos os exames, bateu chapas, pediu novos exames de laboratório e como eu sabia que ia acontecer, quer me conhecer.
O Naldo me ligou e contou as coisas, então eu falei pra ele que vou ter que ir até o meu mundo, que assim ele não fica me ligando, nem tentando me localizar pelo computador.
A mãe dele mandou me convidar pra jantar, mandei lhe agradecer e dizer que não posso, porque já o compromisso da viagem. Fica para outra vez. Prometi que quando for pra Capella, aviso ele. Resolvi explicar a ele porque, o Naldo ficou chateado e eu também estou. Gosto muito dos dois garotos e expliquei direitinho a situação. Acho que ele entendeu o quanto é perigoso eu ficar por aqui agora.
Não posso ficar fazendo coisas assim como essa, que fiz com o Rômulo. Isso é muito perigoso e chama muito a atenção.
Fiquei sabendo que um dos colegas de acampamento do Naldo foi jantar lá na casa dele, e contou a história lá que o Naldo tinha visto uma E.T. Encontraram ela no mato. Isso na noite que o Doutor foi jantar lá. Viu, se eu tivesse ido? Naldo negou tudo, mas o garoto disse que a turma sabia dessa história. Era só perguntar pra todos pra confirmar, e eles perguntaram. Confirmação geral. Quiseram saber onde tinha sido o acampamento, e advinha, vieram bater aqui no mato. O pessoal está me procurando. Revirando tudo por aqui. Já fiquei invisível, lógico. O Naldo está lá no quarto dele, chorando, rezando, e posso vê-lo dizendo:
- Meu Deus, não deixe acharem ela, por favor.
Estou aqui só apreciando a confusão deles, os carros policiais estão parados lá na frente da mata e eles estão batendo o mato todo atrás de mim, em uma operação de guerra. 

A mãe dos meninos surtou quando soube que eu sou uma ET. Ela disse:
- Por isso que eu não gostava dela, eu sabia que ela era uma coisa perigosa. Coração de mãe não se engana. Sente os filhos em perigo.
E o Naldo, negando:
- Mãe, foi uma brincadeira que eu fiz com eles lá no mato, não tem ET nenhuma. Quando, já, vou ter amiga E.T.? A Eti não é uma E.T. Eu inventei isso, ela é só uma amiga.
- E onde você conheceu aquela coisa?
- Mãe, que é isso? Ela é uma pessoa. Por que você não gosta dela?
- E por que ela não aparece agora para desmentir tudo isso?
- Ela viajou.
- Viajou! Viajou!... Ela está é se escondendo!
- Mãe, o que eu disse quando você convidou ela pro jantar? Eu não disse que ela ia viajar? Não foi isso? Então, ela está viajando.
- E a casa da avó dela, onde você foi, onde fica?
- Ah, não sei... Ela que sabe.
- Não é em São Paulo? Você foi com ela, como não sabe?
- Ah, mãe! Para com isso, que coisa. Oh, pai, olha a mãe aqui!
O pai:
- Sua mãe tem razão, está tudo muito esquisito, sem explicação. Essa cura do Rômulo, não é uma cura normal.
O Naldo disse:
- Ah! Você também vai acreditar nisso, é? Já disse que foi brincadeira. Puxa vida! Que saco!
Naldo subiu pro quarto dele, nervoso. E eu que estava assistindo tudo, vim embora. Começou a dar no noticiário da TV a caçada. Pensei: “Se a minha avó estiver vendo isso, ela vai morrer de susto, porque a moça contou que um disco voador levou a minha mãe, agora sai a notícia na TV com a minha cara. Um retrato falado que a mãe do Naldo fez. Minha avó viu a foto que deixei cair no chão, me viu, vai pirar.
 Fui até a casa dela olhar o que estava acontecendo por lá. E o pessoal continuou lá batendo a mata toda atrás de mim. 
Os outros garotos todos vieram também, pra mostrar o local do acampamento. O Naldo, não, ele está lá no quarto dele chorando, rezando e pedindo para não me pegarem. Não posso nem ir lá com ele. O Rômulo também está triste, vou esperar passar isso e vou lá com os dois.
Na casa da minha avó, vi a empregada comentando com a outra, lá na cozinha.
- Eu vi, fui eu que abri a porta pra ela. Ela era esquisita assim mesmo como mostra na TV. A D. Elisa ficou tão nervosa com ela, fritou mandando ela embora, não sei porque. Acho que sentiu que ela não era gente, sabe?
- Será que ela é ET mesmo?
- Não sei, mas estão dizendo.
Minha avó estava em choque, lá na sala desmaiada. A ambulância veio e levaram ela.
Saí dali pensando: “Ainda vai dar muita confusão. Não posso ir com essa cara em lugar nenhum agora. Nem ir comprar meu jantar. Vou ter que pedir pros Rapazes do disco. O que será que eles estão fazendo, que ainda não falaram comigo a respeito disso?
Olhei na palma da mão esquerda, e eles estavam vendo o noticiário da TV, acompanhando tudo com atenção. 
Fui lá no hospital, com a minha avó. Me aproximei da cama e fiquei lá olhando pra ela. Invisível, claro, porque o filho Elias, a esposa e mais uns outros que eu não conhecia, estavam lá, então eu não podia aparecer, lógico. Olhei pra minha avó e falei em pensamento: “Vó, não sei porque a senhora não quis saber de mim. Sei que não me conhece mas eu sempre amei você sem conhecê-la. Queria tanto uma avó, você é tão bonita.
Minha avó abriu os olhos dizendo:
- Ela está aqui, ela está aqui!
Chamaram os médicos, porque ela queria sair da cama e estava todo ligada, lá.
O médico veio, aplicou um calmante e ela ainda disse algumas vezes que eu estava lá, e resolvi sair pra ela poder sossegar. Ela estava muito agitada. Dormiu.
Eu estava muito triste, bem chateada com tudo aquilo, na certeza que nunca iria ter uma avó. Ela não me queria mesmo.
Mas cheguei em casa, os rapazes do disco vieram falar comigo.
- Viu só a confusão? Até a sua mãe já está sabendo lá em Capella. Ela vê TV aqui da Terra.
- Falem pra ela não se preocupar, que eu estou bem e sem pistas.
- Já falamos com o seu pai e dissemos a ela que estamos com você, lhe protegendo. Agora é esperar passar, porque vai ter muita gente no país todo e no mundo sabendo a cara que você tem. Você já está na internet.
- Se for preciso eu mudo de cara, mas gosto dessa.
- Essa cara é boa, e agora famosa. O Mundo vai ficar pequeno pra você.
- Queria pedir pra comprarem meu jantar. Vocês sabem o que eu gosto, não sabem?
- Sabemos, comemos isso também, e o seu já está lá no forno. Melhor não sair enquanto houver todo esse movimento aí fora. A tarde está muito agitada. Compramos logo mais cedo e já está guardado pra mais tarde.
- Obrigado.
- De nada. Bom apetite.
Eles subiram pra nave e começou a tocar uma música que eles gravaram pra ouvir. 

Flip by Jesse Green on Grooveshark

Os caras do disco são legais, não me deixam só um instante, estão sempre aí em cima me observando, pesquisando, estudando, me dando apoio. Agora até música eles estão gravando para me alegrar. Já aprenderam meu gosto musical direitinho.
Lá fora o pessoal continua me procurando. Os helicópteros passam aqui por cima, observando e procurando algum sinal de confirmação da história.
E eu aqui invisível jantando calmamente e curtindo o som do disco voador. Os rapazes são animados. Uma hora dessas eles devem estar dançando lá. Eles se divertem. Ou então estão jogando xadrez. Resolvi comer logo meu jantar, pois essa confusão toda me deu fome. Acabei o jantar e subi lá no disco. Eles jogavam xadrez mesmo. As pedras, de cristal, se mexem sozinhas através da nossa energia mental, não colocamos as mãos nelas.
Disse que queria falar com eles lá em casa. Um dos rapazes que não estava jogando veio fazer a conexão pra mim.
- Mãe! Tudo bem aí?
- Estamos preocupados com você. Onde você está?
- Aqui na nave.
- Vocês não saíram daí?
- Estamos invisíveis.
- Etnéia, deixa de ser teimosa. Saia daí. Vou chamar o seu pai pra falar com você. Ele está querendo ir buscá-la pra cá.
- Calma, mãe, eu não vou sair daqui.
- Que música é essa?
- Estamos ouvindo.
- Com toda essa confusão, estão ouvindo música, Etnéia?
- Está tudo bem...
- Parem de tocar! Isso não é hora de curtir som, Etnéia. Francamente.
- A culpada dessa confusão é você, se tivesse me mandado pra casa da minha avó quando eu nasci, hoje eu seria uma terráquea normal. Mas me mandou pra um orfanato.
- Não fui eu, foi seu pai. Ele achou que lá no meio das outras crianças você estava mais segura. Se lembre que você é diferente, não podia chamar a atenção, e lá na casa da sua avó, chamaria. Tinha que se criar como se criou, e viver assim, só. Não tinha nada que se meter com os terráqueos. Eles são traiçoeiros, inimigos, e se lhe pegarem você sabe o que vai acontecer.
- Tá, mãe, tchau.
Desligamos. Ela tem toda razão, sabia?

Beijos.

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